RÁDIO JESUS VIRÁ\SOTELO

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

SOTERIOLOGIA


 SOTERIOLOGIA




CONCEITO GERAL
Soteriologia (Do gr. = ciência da salvação). É a parte da Teologia e da Cristologia
que diretamente trata da redenção da humanidade pecadora pelo sacrifício de Jesus
Cristo. Enviado pelo Pai, feito homem em tudo igual aos homens exceto no pecado,
em nome deles e em seu proveito, ofereceu a vida na Cruz para remir o pecado da
humanidade e abrir-lhe as portas do Céu. Esta redenção oferecida gratuitamente
apela à aceitação por cada homem dos merecimentos de Jesus Cristo, mediante os
meios de salvação e santificação, objeto de outras secções da Teologia.
01 - DEFINIÇÃO DO TERMO.
Em teologia nos costumamos usar termos técnicos, termos próprios da ciência
teológica, da mesma forma como a medicina usa palavras próprias dos estudos
médicos, como por exemplo: os médicos empregam a palavra “cardia” em lugar de
“coração”, sendo que “cárdia” é uma definição grega para a palavra, daí deriva
“cardiologista”, ataque “cardíaco” etc. Em teologia usamos a palavra Soteriologia
para definir tudo o que se relaciona com “salvação”, pois a palavra deriva de SOTER
que em grego significa: “salvação” “libertação” “preservação”. Note-se de início que
uma palavra grega pode ter mais do que um significado.
Para guardar na memória: Soter é uma palavra grega que significa: Salvação,
Libertação e Preservação. – Léxico do Novo Testamento Grego Português, de
F. Wilbur Gingrich, Edições Vida Nova, 1993, página 202.
Para se ter uma noção básica do uso da palavra: recomendamos a leitura dos
seguintes textos: Deus como sendo Salvador, Libertador e Preservador – Lucas
1:47; 1 Timóteo 1:1; 2:3 e 4:10; Tito 1:3; 2:10 e 3:4; Judas 25. Jesus como sendo
Salvador, Libertador e Preservador Lucas 2:11; João 4:42; Atos 5:31; 13:23; Efésios
5:23; Filipenses 3:20; 2 Timóteo 1:10; Tito 1:4; 2:13; 3:6; 1 João 4:14; 2 Pedro 1:1 e
verso 11; 2:20; 3:2 e 18. Entre muitos outros textos.
Por que é necessário o estudo da soteriologia? Por causa da existência do pecado
(Em grego: hamartia), portanto, hamartia é o oposto a soter, “o pecado nos separa
de Deus, o pecado desarraiga-nos do meio em que devemos viver. O pecado
converte a luz em trevas, o gozo em tristeza, o céu em inferno, e vida em morte. O
pecado é o maior e mais terrível inimigo da alma humana. Ele destrói as promessas,
mata as esperanças, dá-nos serpentes, em vez de peixes, pedra, em lugar de pão,
tormento, em lugar de prazer. O pecado sempre destrói a nunca edifica. Promete,
mas nunca cumpre a promessa. É como diz a Bíblia ‘O salário do pecado é a morte’”
– Romanos 6:23”. Esboço de Teologia Sistemática, A. B. Lanston, Editora JUERP,
página 151.
Temos então que a causa para o estudo da soteriologia é a existência do pecado, se
não existisse esse mal universal, não haveria necessidade de salvação. Para
compreender em toda sua plenitude a Salvação provida por Deus, devemos
entender o que é o princípio fundamental do pecado.
O que entendemos por princípio fundamental? Em teologia devemos sempre
procurar definir corretamente os termos empregados, saber o que estamos falando e
porquê. Cada conceito usado deve ser explicado, pois, a teologia é conceitual, ou
seja, define termos e conceitos de maneira correta e apropriada. Devemos entender
por princípio fundamental aquilo de onde se originou o conceito, por exemplo: se nos
estamos estudando sobre salvação, devemos primeiro, antes de tudo, definir
corretamente de onde se originou o pecado, a sua razão de ser. Temos que
descobrir a fonte de onde ele é oriundo, saber porque ele opera e porque existe na
vida do homem. Em termos gerais temos que compreender, entender e saber
explicar onde nasceu o pecado e porquê. Pois é do pecado que somos salvos. Na
linha de compreensão, entender o pecado será entender a razão para sua solução
que é: SOTER = salvação, libertação, preservação.
Para guardar na memória: O que você entende por “princípio fundamental de
um conceito” teológico? Por que a teologia é conceitual? (Nota: estas
perguntas são para ir guardando na memória o que estamos lendo, não
necessita responder por escrito)
A melhor definição bíblica para o pecado é: um estado mau da alma, em que esse
estado tem suas próprias manifestações que são os atos pecaminosos. Entendendo
por estado uma posição definida, determinada, como quando falamos: qual é o
estado de saúde do paciente? Assim, a alma que está em pecado está num estado
mau, a alma está deteriorada e aviltada. Note-se que existem dois conceitos
completamente diferentes: estado e ato. O estado pecaminoso é uma coisa
enquanto que o ato do pecado é outra coisa.
Esta primeira compreensão é extraída de suas origens, das origens do pecado no
homem. O relato de Gênesis é muito claro quando logo após o pecado Deus
perguntou para Adão “Onde estás?”. Gênesis 3:9 – Note-se que é a primeira
pergunta de Deus logo após o pecado, imediatamente logo após o ato do pecado.
Isto significa que Adão mudou de posição, pois “onde” é em hebraico (no texto
original “ay”) um advérbio de lugar. Portanto, quem mudou foi Adão e não Deus, as
mudanças sempre acontecem no homem e nunca em Deus. Deus não muda.
Agora que sabemos o princípio fundamental do pecado que é exatamente uma
mudança de posição em relação a Deus, uma distância, separação. Sendo um
estado da alma. Vejamos mais uma prova: “Clama a plenos pulmões, não te
detenhas, ergue a voz como a trombeta e anuncia ao meu povo a sua transgressão
e à casa de Jacó, os seus pecados. Mesmo neste estado, ainda me procuram dia a
dia...” Isaías 58:1-2. Bíblia Sagrada, Revista e Atualizada, 2a Edição, 1993. (Usamos
sempre esta Versão, se houver o uso de outra Versão será indicado no texto.). Notese
no texto de Isaías a palavra “estado” para descrever a condição pecaminosa de
Judá na época. Judá estava em transgressão e pecado, um estado da alma.
Podemos entender que o pecado é um estado de separação de Deus lendo Isaías
59:2. Obviamente que entendendo dessa maneira, da maneira bíblica podemos
agora compreender que o homem pode se separar de Deus por um momento ou por
toda a eternidade.
A universalidade do pecado – Este estado mau da alma é universal, ou seja,
significa que todos os homens nascem nesta condição ou posição. (usamos a
palavra “homem” de forma genérica, nos referindo à raça humana). Todos quantos
nascem neste mundo já nascem nessa posição ou estado de pecado, ou seja,
nascem debaixo desse princípio fundamental. Paulo chama a este estado universal
da alma de “morte” (leitura: Efésios 2:5).
Agora vamos sugerir uma leitura bíblica: Seguindo a orientação dos estudos
realizados até aqui, a seu modo de ver, o que ensinam os seguintes textos? Salmos
143:2; Lucas 11:13; Romanos 3:10; 1 João 1:8; Lucas 6:43-45; Mateus 12:34 e
Salmos 51:5-7. Se desejar se aprofundar melhor então trabalhe os textos e faça um
resumo da conclusão tirada da leitura dos textos em relação com a questão do
princípio fundamental do pecado (lembre o que você já sabe sobre princípio
fundamental).
Um resumo de nossos estudos de Soteriologia
"O termo 'justificação' refere-se ao ato divino mediante o qual, com base na
obra infinitamente justa e satisfatória de Cristo na cruz, Deus declara que os
pecadores condenados livres de toda a culpa do pecado e de suas
conseqüências eternas, declarando-os plenamente justos aos seus olhos"
Teologia Sistemática - Uma Perspectiva Pentecostal, Stanley M. Horton (CPAD).
Texto citado como adendo cultural.
A justificação é um ato declarativo, ou seja, uma declaração de Deus. Não é algo
operado no homem, mas sim algo declarado a respeito do homem. Um ato fora de
nós, por nós e completamente realizado pela soberania de Deus.
A justificação significa para o pecador arrependido, a mudança de posição diante
de Deus de condenado para justificado (Romanos 5:1; 8:33, 34). Lembre de Gênesis
3:9 estudado nesta aula.
02 - O QUE ESTÁ ENVOLVIDO NA JUSTIFICAÇÃO.
A Remissão da Pena.
A pena para o pecado é a morte nos seus três aspectos, espiritual, física e eterna
(Gênesis 2:17, Romanos 5:12-14; 6:23).
Esta pena foi removida de forma eficaz, completa e satisfatória na morte de Cristo,
que sofreu o castigo de nossos pecados em seu próprio corpo (Isaías 53:5-6; 1ª
Pedro 2:24).
Como Cristo sofreu o castigo do homem pelo pecado. Foi, portanto, uma morte
substitutiva. Deus agora revoga o castigo no caso dos que crêem em Cristo (Atos
13:38-39; Romanos 8:1, 33-34; 2ª Coríntios 5:21).
Restauração ao Favor.
Um criminoso que foi perdoado pode ser restaurado a seus direitos civis, se o
castigo revogado envolver a perda deles, mas não está reconciliado à sociedade.
Não está restaurado ao favor de muitos que o hão de considerar ainda criminoso. A
justificação, no entanto, assegura a restauração ao favor e à comunhão de Deus.
A Imputação da Justiça.
Imputar é creditar alguma coisa a alguém. É atribuir ou conferir a alguém o direito
que não tinha.
A justiça de Cristo nos é imputada (2ª Coríntios 5:21; 1ª Coríntios 1:30).
Estudaremos neste curso como isso se deu no caso dos salvos na época do Antigo
Testamento e no Novo Testamento.
Já vimos que a origem do pecado acha-se num ato voluntário do homem. Adão não
foi obrigado a pecar, e nem Eva. A queda do homem, não consiste tanto num ato,
como num estado, daí a pergunta: “Onde estás?”. O princípio envolvido é que Adão
fez de si mesmo o centro de sua vida em lugar de ter feito Deus o centro de sua
existência. E fazer de si mesmo o centro é escolher a própria vontade em lugar da
vontade de Deus. Pelo livre arbítrio Adão podia opinar, decidir e escolher entre fazer
sua vontade ou a de Deus, e foi por esse livre arbítrio que ele escolheu pecar.
Por que Deus permitiu que Satanás tentasse a Eva e Eva tentasse a Adão? Esta
resposta considera uma pergunta anterior: Quem tentou a Satanás? Ele caiu sem
nenhuma tentação de fora, pelo que se tornou mesmo Satanás, o vocábulo
hebraico denota um “adversário” contrário a Deus. Por não ter sido tentado e ter
assim mesmo se transformado num adversário perdeu toda a esperança de
salvação. Nenhuma atenuante há para sua queda. E se Satanás caiu sem tentação,
poderia também assim ter caído o homem, porque também foi criado um ser livre,
com livre arbítrio, da forma como era o Diabo antes da queda. Agora, se o homem
houvesse pecado e caído sem tentação de fora, da mesma forma como o diabo,
nenhuma esperança lhe restaria. A condição do homem seria desesperadora.
Portanto deve perceber a diferença significativa entre a queda de Satanás e a queda
do homem, Satanás caiu sem ser tentado. O homem caiu devido à tentação.
Uma segunda observação interessante sobre a queda é a seguinte: A justiça que o
homem tinha quando fora criado era uma justiça emprestada. Não era propriamente
do homem, porque ele ainda não tinha feito a escolha entre o bem e o mal. Porém
era necessário que a escolha fosse feita, e a vontade permissiva de Deus permite
que o homem seja colocado nessa posição de escolher. A tentação, caso fosse
vencida, daria ao homem a oportunidade de confirmar seu estado original, o estado
em que tinha sido criado, Adão e Eva poderiam fazer da justiça original, emprestada,
uma justiça adquirida. Vemos então que o plano de Deus para o primeiro casal era
sábio, pois lhes deu a oportunidade de se tornar verdadeiramente santos e justos.
Não se poderia imaginar uma oportunidade melhor para a raça humana se firmar na
justiça do que a oportunidade dada por Deus no Jardim, pois ali as circunstâncias
eram favoráveis para escolher em melhores condições entre o bem e o mal. Não é
assim hoje, os que escolhem decidir ao lado do bem, escolher uma posição ao lado
de Deus, lutam geralmente contra grandes dificuldades. Mas, graças a Deus há
ainda oportunidade para o homem escolher o bem e rejeitar o mal.
Consideremos agora a solução para o pecado.
A Justificação do Pecador.
O nascimento de Jesus foi o acontecimento mais surpreendente que já aconteceu
sobre a terra. Nada igual a isto ocorreu no passado. E nada igual poderá suceder
jamais. Ele nasceu de uma mulher, conforme e profecia, cresceu num humilde lar de
um camponês, viajou como pregador itinerante, morreu em agonia e vergonha, se
levantou da tumba e ascendeu aos céus. Os doze apóstolos foram escolhidos como
testemunhas oculares destes acontecimentos. Depois Cristo escolheu um outro
homem por meio do qual o Espírito Santo revelaria o verdadeiro significado daqueles
acontecimentos narrados nos evangelhos. É nos escritos de Paulo que o Evangelho
dado aos hebreus em forma de símbolo, sombras e promessas fica plenamente
revelado.
O tema do Evangelho de Paulo é Cristo, e este crucificado para justificação dos
pecadores (1 Coríntios 2:2; Gálatas 1:4) É certo que os demais apóstolos também
deram testemunho da salvação dos pecadores por meio de Jesus; porém Paulo nos
mostra como é que o Evangelho é uma revelação da justiça de Deus (Romanos 1:16
e 17). Como pode um Deus justo justificar a pecadores? Como pode a extensão da
misericórdia para transgressores da Lei ser consistente com as exigências da
Justiça divina? Estas e outras são as perguntas interessantes que devem ser
respondidas, se é que o homem rebelde há de reconciliar-se com o caráter de Deus.
A palavra chave nos escritos de Paulo é justificação. Tanto no Antigo Testamento
como no Novo, as palavras justificar e justificação têm um significado legal e judicial
bem definido; são palavras que estão intimamente relacionadas com a idéia de juízo
ou teste (Deuteronômio 25:1; 1 Coríntios 4:3; Mateus 12:37). A palavra justificação
pode ser definida como ser alguém declarado justo por um tribunal. Quando se diz
que Deus justifica a um homem, quer-se dizer que seu caso foi levado a juízo diante
de Seu Divino Tribunal e que, depois de examinar o caso, declarou-se o acusado tão
livre de qualquer falta ou culpa como se fosse todo ele justo e agradável a vista de
Deus. Em português convencional, a palavra aceitação se ajusta bem ao significado
de justificação dado na Bíblia.
Na epístola de Paulo aos Romanos o apóstolo propõe responder ao grito universal
do coração humano: “Como, pois, seria justo o homem perante Deus?” Jó 25:4. O
que significa essa pergunta é: Que posso fazer para levar Deus a aceitar-me? Então
a resposta de Paulo é enfática: Absolutamente nada!
Antes de apresentar, na epístola aos Romanos o modo mediante o qual Deus
alcança o homem, o apóstolo expõe a inutilidade do modo mediante o qual o
homem tenta alcançar a Deus. Não há nem um justo, ninguém que entenda,
ninguém que busque a Deus, ninguém que faça o bem (Leia: Romanos 3:10-12).
Paulo diz simplesmente que ninguém pode chegar a ser justo à vista de Deus
mediante sua forma de agir. Aqui ele usa o tempo futuro do verbo. Ele quer dizer
que nenhum mortal virá a ser considerado justo alguma vez com base em sua
própria vida – “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” Romanos 3:23.
Ou, ainda como diz Salomão: “Não há homem justo sobre a terra, que faça o bem e
que nunca peque”. Eclesiastes 7:20. Não há nenhuma forma de o homem se autojustificar
diante de Deus, a inutilidade de qualquer método humano de Salvação fica
completamente descartado, pois a Salvação, a Libertação e a Preservação (grego =
soter) só seria possível por uma intervenção divina nos assuntos humanos.
Tendo abatido o orgulho humano, e havendo exposto a inutilidade de todos os meios
humanos, o apóstolo nos mostra que a justificação do homem procede
completamente de Deus.
A Atividade Salvadora de Deus.
O Novo Testamento apresenta dois aspectos da atividade salvadora de Deus, e para
estudar em detalhes estes dois aspectos vamos facilitar numerando cada um deles.
Número 1 – Obra de Deus por nós em Cristo
Número 2 – Obra de Deus em nós pelo Espírito Santo.
Perceba com atenção a diferença entre as palavras e seu profundo significado,
vamos agora definir os conceitos. Lembre mais uma vez que Teologia é conceitual,
define conceitos, explicando-os e os tornando claros.
Número 1 – A Obra de Deus por nós em Cristo, é o Evangelho. É a declaração do
que Deus tem feito em Seu Filho pela família humana. Como Paulo declara: “Deus
estava em Cristo reconciliando consigo o mundo...” 2a Coríntios 5:19. Deus nos
considera para Seu favor na pessoa de Seu amado Filho. Pois, em Cristo nosso
livramento está assegurado e os nossos pecados estão perdoados (Efésios 1:6 e 7).
A Obra de Deus por nós em Cristo, esta declaração destaca a ênfase da frase EM
CRISTO, por essa razão pode ser chamada também da Obra de Cristo em nosso
favor. “Cristo morreu pelos nossos pecados segundo as Escrituras” 1a Coríntios 15:3
Ele “foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da
nossa justificação” Romanos 4:25. A repetição (duas vezes) da frase “por causa” é
muito significativa para a deixar de lado, há uma CAUSA para todo o que Cristo fez!
É muito importante notar que o Evangelho é o registro do que Deus fez FORA de
nós. Não é o registro do que Deus tem feito em nós; nem do que Deus fará em nós.
Esses são aspectos posteriores. Ao contrário, o Evangelho é o registro do que Deus
já fez fora de nós. O que Ele fez No Senhor Jesus Cristo. E o significativo deste
primeiro aspecto (número 1) é que Deus o fez enquanto nos éramos seus inimigos,
enquanto éramos pecadores, quando nos desviávamos dele mais e mais, então
Deus fez alguma coisa por nós em Cristo. Leia: Romanos 5:6-10 Procure entender
com clareza o pensamento de Paulo neste trecho.
Em Romanos 5, Paulo apresenta o contraste entre Adão e Cristo. Através da
desobediência de Adão toda a raça humana se tornou pecaminosa à vista de Deus,
pois o pecado de Adão não foi apenas um pecado individual, foi o pecado de uma
raça, sendo ele o cabeça da família humana. Era a universalidade do pecado, pois
ele contaminou a raça com o vírus chamado “morte”. Quando o diabo conquistou
Adão, conquistou toda a família humana. Então era necessário um plano para
resgatar o homem do império da morte. Deus redimiu a raça humana dando-nos um
outro Senhor, e não mais o Diabo, dando-nos um outro pai e não mais o Diabo (João
8:44), um novo pai para permanecer como cabeça da raça humana (Isaías 9:6). Foi
em Cristo que Deus remiu a família humana. Ele comprou-nos com o precioso
sangue de Cristo. Deus colocou nossos pecados sobre a cruz. Em Cristo Ele nos
deu uma perfeita justiça (Romanos 5:18-19). Assim, o evangelho é o registro do que
Deus fez, não em nós, mas fora de nós, em seu Filho Jesus Cristo, enquanto
éramos inimigos. A verdadeira experiência cristã encontra sua alegria neste aspecto,
a plenitude do evangelho se manifesta neste aspecto. Isto significa que há alegria e
contentamento pela Obra de Deus por nós em Cristo, que é uma obra infinita, é uma
obra completa. Nossa aceitação diante de Deus é baseada sobre este aspecto.
Procure entender o Evangelho: Nossa correta posição com Deus, e agora voltamos
a usar este conceito de posição, ou estado da alma. Repetindo, nossa correta
posição com Deus foi alienada por Satanás, ficamos separados, em posição de
iniqüidade, mortos em pecados (Efésios 2:1). Sofríamos as conseqüências da
universalidade do pecado. Então Deus fez por nós em Cristo, o que nós não
poderíamos fazer por nos mesmos. Portanto, é a experiência de Cristo que tem
mérito diante de Deus, e não a nossa. Isaías 53:11 explica claramente este conceito:
“... O meu servo, o justo, com o seu conhecimento, ele justificará a muitos”. No
hebraico original a frase “seu conhecimento” é “bedaeto” que significa mais
apropriadamente “por seu conhecer” (compare com Isaías 50:4 e 5). Dando assim a
entender que uma tradução mais correta seria “experiência”. Isto equivale a dizer:
“por suas feridas, por seu sofrimento, por seu viver santo, por sua morte expiatória e
sua triunfante ressurreição, o meu servo, o Justo, justificará a muitos”. Em outras
palavras, pela experiência de Cristo Jesus é que nos somos justificados e não por
nossa experiência. A verdadeira experiência cristã deve encontrar sua alegria em
alguma coisa externa a si – a experiência de Jesus.
Faça um resumo com suas palavras de Romanos 3:24-26. Depois, continue lendo
esta aula: Se o (a) aluno (a) já fez o resumo de Romanos 3:24-26, está preparado
para estudar em detalhes os três aspectos da justificação, e deve entender que
destes três aspectos os dois primeiros correspondem com a primeira fase da
Atividade Salvadora de Deus, A Obra de Deus por nós em Cristo.
Lembrando e ampliando os conceitos já estudados.
Número 1 – A Obra de Deus por nós em Cristo.
· Justificados pela graça somente – A Fonte da justificação
· Justificados por Cristo somente – O Modo da justificação.
Número 2 – A Obra de Deus em nós pelo Espírito Santo.
· Justificados somente pela fé – a Condição para receber a justificação.
Nós desejamos sua atenção e este fator significativo: lembramos a você que os
conceitos em teologia são importantes, pois determinam uma correta compreensão
dos assuntos estudados, sendo assim, preste atenção aos dois conceitos vertidos
acima, notando a diferença entre POR nós e EM nós. De onde o trabalho de Deus
por nós foi uma obra externa (justificação), fora de nós. Enquanto que o trabalho de
Deus em nós é uma obra interna (regeneração). Ampliemos agora os detalhes
desta compreensão.
Salvos pela graça somente.
A primeira parte do texto em estudo é “Sendo justificados gratuitamente por sua
graça (a do Pai)”. Romanos 3:24. Graça significa misericórdia e favor mostrado
para com alguém que está perdido e nada merece.
A fim de preservar a natureza gratuita da justificação, Paulo disse que os pecados
são justificados “gratuitamente” pela graça de Deus. A palavra “gratuitamente”
significa “sem motivo” (como em João 15:25). Por essa razão podemos afirmar que
nenhum grau de crença, de obediência, de experiência, de arrependimento ou de
edificação do caráter pode levar Deus a considerara-nos alguma vez justo ante seus
olhos. Alguém já disse acertadamente que justificação pela graça significa a divina
aceitação de pessoas que são em si mesmas inaceitáveis.
É importante notar também que Paulo não só está falando acerca de tornar-se
justificado no início da vida cristã. Ele usa o tempo presente contínuo do verbo grego
– “sendo justificados”. Isto inclui o estado de permanecer justificados, tanto como o
ato de chegar a ser justificados.
Nota 1: queremos que preste atenção novamente à palavra “estado”, pois como
aprendemos anteriormente, o pecado é um estado, assim, em contrapartida o
permanecer justificados, segundo o texto de Paulo é também um “estado”.
Nota 2: Para guardar na memória – O ato da justificação é o ato de um
momento enquanto que o permanecer justificados é uma ação linear, contínua.
Porém, este permanecer não significa em nenhum momento um ato nosso, pelo
contrário, sendo justificados, indica uma justificação que vem de fora, ou seja, nunca
poderemos ultrapassar a justificação pela graça. Não podemos permanecer no favor
de Deus a não ser por pura misericórdia. Se em algum momento pudéssemos
apresentar-nos como aceitáveis diante de Deus baseados em nossa fé, nossa
obediência ou qualquer excelência moral, já não seria mais justificação por graça. Se
a justificação conforme as palavras de Paulo é dada “gratuitamente” seria uma
ofensa a Deus querer “pagar” alguma coisa por ela. A Bíblia de Estudo Almeida, no
Dicionário que acompanha essa edição, na página 61 explica assim o conceito de
Graça: “bondade excepcional de Deus para com os seres humanos (como
pecadores), para tornar possível o seu perdão e salvação (João 1:14; Efésios 2:4-5).
Essa misericórdia imerecida está sempre disponível para aqueles pecadores que
crêem no evangelho e obedecem ao Senhor (Atos 11:23; 20:32; 2Coríntios 9:14) Os
cristãos primitivos usavam essa palavra quando se reuniam e se saudavam
(Romanos 1:7; 1Coríntios 1:3; Gálatas 1:3)”. Em resumo a justificação pela graça
somente corresponde a compreender onde está a fonte da justificação – Na graça
divina outorgada por Deus o Pai.
Justificados por Cristo somente.
Devemos também compreender a maneira pela qual a graça opera para fazer o
pecador aceitável à vista de Deus. Está escrito que o modo de nossa justificação é:
“mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (segunda parte do texto em
estudo) Romanos 3:24. Mas também está escrito que somos justificados “... pelo
seu sangue”. Romanos 5:9.
Os atos e a morte do Senhor Jesus constituem a única base de nossa aceitação
para com Deus. Ele se constitui no substituto e garantia para pobres e perdidos
pecadores. Em favor deles Jesus deu à lei uma obediência perfeita que se mede
com seus mais altos reclamos. Em seu favor, pelas agonias da sua morte, pagou à
lei a dívida pelas transgressões.
A Obediência ativa (vida de Cristo) e passiva (Morte de Cristo) foi de todo suficiente
para assegurar a justificação de todo pecador. Disse o apóstolo Paulo: “um morreu
por todos, logo todos morreram” 2ª Coríntios 5:14. O que isto significa dentro do
conceito de justificação? No que se refere à justiça, esta pode olhar a Cristo e
considerar a todo homem como morto.
Se o salário do pecado é a morte, isto é, a dívida do pecador para como a lei é a
morte, então deve em algum momento pagar a dívida. Se aceitar a morte de Cristo,
então ele morreu com Cristo, pagou a dívida e está justificado, não deve mais nada.
Imaginemos a cena do Juízo Final. A lei se apresenta para cobrar seu salário,
aponta para este pecador e diz: Ele é um pecador, deve morrer, pagar a sua dívida.
Nesse momento se apresenta Jesus, o Advogado e pergunta para a Lei: Morrer? Por
que morrer? Ele já morreu, porque “um morreu por todos, logo todos morreram” 2ª
Coríntios 5:14. E isto é assim porque Cristo é o substituto de todo homem que
aceita sua morte. Isto era tão claro na mente de Paulo que ele diz: “Porque eu,
mediante a própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado
com Cristo; logo não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim...”. Gálatas 2:19-
20. Paulo considerava-se morto para a lei, sendo assim, a lei não poderia cobrar o
débito, pois ele foi pago com o precioso sangue de Jesus.
Em vista disso, em sua epístola aos Romanos o apóstolo Paulo faz esta
surpreendente declaração: “O qual foi entregue por causa das nossas
transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação”. Romanos 4:25. A
justificação não é algo que temos que assegurar. Ela já está segura. A ressurreição
de Cristo é a prova de que Deus aceitou a humanidade na pessoa de Seu Filho.
Alguém talvez pergunte: “Quer dizer que Deus já efetuou minha justificação através
da morte de seu Filho?” Ao que podemos responder. Isto é precisamente o
Evangelho. São as Boas Novas do que Deus fez. O sepulcro vazio é a prova de que
Deus já perdoou nossos pecados e nos tem recebido de volta a seu favor real.
Vejamos isto na Escritura: “... sua graça que Ele nos concedeu gratuitamente no
amado” Efésios 1:6.
Voltemos ao ponto central da soteriologia: Quando Adão desobedeceu, a
condenação e o pecado passaram a toda a raça humana. E isto aconteceu assim
porque ele era nosso pai, o cabeça da raça humana. Quando ele caiu, todos caíram.
A condenação veio sobre nós, não por causa do que fizemos, mas por causa do que
Adão fez. “pela desobediência de um só homem muitos se tornaram pecadores”
Romanos 5:19. De modo que nós nos tornamos pecadores não por algo que
aconteceu em nós, e sim por algo que aconteceu completamente fora de nós.
Deus salvou a raça humana dando-nos outro pai: Jesus Cristo (Isaías 9:6). Da
mesma maneira que todos foram condenados pelo que Adão fez, foram todos
justificados pelo que Cristo fez. “Por um só ato de justiça veio a graça sobre
todos os homens para a justificação que dá vida” Romanos 5:18 “Porque pela
desobediência de um só homem muitos se tornaram pecadores, assim também
por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos” Romanos 5:19.
De modo que é para sempre certo que a única base da aceitação para com
Deus é o que Cristo já fez por nós. Cristo, e unicamente Cristo foi encontrado
agradável à vista de Deus. Existe somente uma razão para nossa aceitação para
com Deus – O fato de que Cristo foi aceito. Sua obediência de dois mil anos atrás é
a única base de nossa aceitação para com Deus no dia de hoje.
Pela Fé somente – A condição para receber a justificação.
No que tange a Deus, Ele restituiu o mundo pecador ao seu favor tão certamente
como recebeu a seu filho no Céu. Na cruz se efetuou a justificação objetiva de todo
pecador. Ali Deus redimiu a raça. Hebreus 9:12.
À luz do Evangelho o homem não pode formular a pergunta: Me aceitará Deus?
Pois, Deus já respondeu a esta pergunta mediante a ressurreição de Cristo dentre
os mortos. Se o pecador ainda insiste em perguntar: O que devo fazer para me
salvar? Deus diz ao pecador: olha para a cruz vazia e olha para o Céu onde está a
segurança de tua justificação. O homem foi aceito nas Alturas do Céu, pois já “nos
tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em
Cristo” Efésios 1:3.
O homem pecador já foi aceito em Cristo. Porém, Deus confronta agora o homem
com uma pergunta: “Aceitarás essa tua aceitação?”, então, a fé é o “sim” a essa
pergunta de Deus. A fé é aceitar o fato de termos já sido aceitos. Nossa parte é nos
tornar conscientes de algo que já está em existência. Por meio da fé, a bênção da
justificação é recebida e desfrutada. Este é o aspecto subjetivo da justificação.
Na cruz se efetuou o aspecto objetivo da justificação.
A aceitação da bênção da justificação já realizada é o aspecto subjetivo.
Por meio do Evangelho o Espírito Santo ilumina a alma do pecador, mostra-lhe a
cruz e o aproxima de Cristo, por isso Ele guia, conduz e consola. À medida que o
pecador contempla o Único que o amou e deu-se a si mesmo por ele, o Espírito
Santo persuade de pecado de justiça e do juízo, fazendo entender que o Evangelho
é verdadeiro. Numa palavra, o Espírito lhe dá fé. De modo que Paulo declara:
“Porque pela graça sois salvos mediante a fé, isto não vem de vós, é dom de
Deus”. Efésios 2:8 “Porque nós, pelo Espírito, aguardamos a esperança da
justiça que provém da fé”. Gálatas 5:5. Neste verso é condensado o tema da
soteriologia no seu aspecto subjetivo - Mediante três palavras: Espírito, justiça e fé.
“Assim também Cristo, oferecendo-se uma vez para tirar os pecados de muitos,
aparecerá a segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para a salvação”.
Hebreus 9:28. (Edição Revista e Revisada Fiel ao Texto Original – SBTB, 1995)
A mensagem do Evangelho gira em torno de dois grandes eventos: A primeira e
segunda vinda de Cristo. Devemos agora compreender a relação que existe entre
esses dois eventos e a salvação, que já sabemos em grego é soter = salvação,
libertação e preservação. Portanto, este significado pleno, de salvação, assim
como também de libertação e preservação deve estar sumariamente contido nestes
dois eventos.
O texto citado inicialmente, cuja leitura é Hebreus 9:28, resume o que estamos
analisando. A primeira vinda de Cristo foi uma oferta, pois, o texto esclarece nestas
palavras: “oferecendo-se”, ou seja, o sacrifício e morte, resultado dessa vinda, foi um
ato voluntário de Jesus, jamais devemos pensar que foi um ato obrigatório, pensar
que Jesus teve que passar por isso por que era sua obrigação é errado. Jesus
ofereceu sua vida em sacrifício “para tirar os pecados de muitos” (segunda parte do
texto), o autor desta epístola não disse que o sacrifício foi universal, pois se assim
fosse, ele teria escrito “tirar os pecados de todos”, pelo contrário, ele escreveu a
palavra “muitos” e não “todos” para tirar da mente de seus leitores a idéia de
universalismo da salvação. A seguir Hebreus 9:28 expõe a razão para ser a
salvação objeto de “muitos” e não de “todos”. Jesus virá a segunda vez, agora sem
pecado, isto é, sem um corpo sujeito à morte, como causa do pecado. Jesus virá
para aqueles que o “esperam”. O texto grego é mais enfático, pois, a palavra aqui é
apekdékhomai e significa mais apropriadamente “aguardar com expectativa” “anelar”
- Compare com Romanos 8:19, 23, 25; Filipenses 3:20, onde também aparece a
mesma palavra. A condição especificada aqui é “esperar” “anelar” a segunda vinda
de Jesus para salvação. Assim termina o texto em estudo. O Ato da Salvação como
explicada neste texto tem, portanto, duas fases essenciais (primeira e segunda vinda
de Jesus). Por que a segunda vinda completa a salvação?
Assim como há dois eventos distintos, a primeira e segunda vinda de Cristo, há dois
reinos distintos, trazidos à luz pelo Evangelho: O Reino da Graça e o Reino da
Glória. Quando Jesus iniciou Seu ministério começou a pregar “... e o Reino de Deus
está próximo...”. Marcos 1:15, não se estava referindo ao futuro e imortal Reino da
Glória. Ele se referia ao Reino da Graça que haveria de estabelecer por seu amargo
sofrimento e morte uma vez que este Reino existia por propósito desde a eternidade,
e por virtude de uma promessa desde a queda do homem (Romanos 16:25
comparado com Gênesis 3:15).
O Reino da Graça
Disse o escritor da epístola aos Hebreus: “Acheguemo-nos, portanto, confiantemente
junto ao trono da graça a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça...”
Hebreus 4:16. O trono da graça descrito aqui representa o Reino da Graça, uma vez
que a existência de um trono implica na existência de um Reino. A Bíblia explica que
quando Cristo subiu ao Céu assentou-se no trono (Hebreus 1:3; Atos 2:33; Lucas
22:69). Ele não se assentou no trono da glória; assentou-se no trono da graça, em
seu trono sacerdotal de ofício de intercessão e advogado. O profeta disse: “... Ele...
assentar-se-á no seu trono e dominará e será sacerdote no seu trono...” Zacarias
6:13.
Os salvos pertencem a este Reino da Graça, o apóstolo Paulo explica isto em uma
passagem surpreendente: “Dando graças ao Pai, que vós fez idôneos à parte que
vos cabe da herança dos santos na luz. Ele (o Pai) nos libertou do império das
trevas e nos transportou para o Reino do Filho do seu amor” Colossenses 1:12-
13. Recomendamos a leitura atenta deste texto, meditando nas palavras de Paulo e
extraindo o pensamento central. Os salvos, chamados aqui de “santos na luz” são
aqueles a quem o Pai libertou do império das trevas (lembremos que “libertação” é
também um dos significados de “soter”). Agora note a expressão enfática: “e nos
transportou para o Reino do Filho de seu amor” A expressão grega aqui indica um
tempo passado, um ato já realizado (metéstesen = já transferido). Quem espera por
um Reino futuro, está certo, espera pelo Reino da Glória, mas deve desfrutar agora
dos privilégios como súbdito do Reino da Graça. Então. Quando será inaugurado o
reino da Glória?
O Reino da Glória
No segundo grande evento da história da salvação, na segunda vinda de Jesus será
inaugurado o Reino da Glória. Ele deixou isso esclarecido quando disse aos seus
discípulos: “Quando vier o Filho do Homem na sua majestade e todos os anjos com
ele, então se assentará no trono de Sua Glória, e todas as nações serão reunidas
em sua presença”. Mateus 25:31-32. A pequena palavra grega “tóte” faz muita
diferença, pois significa “então”, pois só então, e não antes, Ele se assentará no
trono de Sua Glória. Quando? Quando vier com os anjos.
O Reino da Glória existe em virtude da promessa e não será estabelecido antes da
segunda vinda de Cristo.
Na época da primeira vinda de Jesus, o povo judeu esperava um Messias que
haveria de se assentar no trono de Davi. Quando ouviram João Batista proclamar,
“O reino dos céus está próximo”, acalentaram esperanças e visões da glória de um
reino literal. Nem mesmo João Batista e os discípulos de Jesus tinham de início uma
idéia correta do propósito da primeira vinda de Cristo, nem idéia da natureza do
reino que Ele estava para estabelecer. No início eles não podiam distinguir
claramente entre o Reino da Graça e o Reino da Glória.
A mesma confusão existe ainda na mente de muitos que professam a fé cristã.
Quando pessoas dizem que a vinda de Cristo é uma vinda ao coração de seu povo
estão confundindo tragicamente os Reinos. Quando alguns dos crentes estão
tentando buscar aqui e agora um cumprimento espiritual de certos atributos próprios
do Reino da Glória estão sem uma informação correta sobre os dois grandes
eventos da salvação. É equivocado tentar trazer certos elementos do Reino da
Glória para dentro do Reino da Graça, trazer o “ainda não” para dentro do “agora”.
Veja 1a de João 3:2.
Um reino se estabelece costumeiramente por guerra e conquista. O Reino da Graça
não é uma exceção. Ficou já estabelecido pelo conflito e conquista do reino da
morte e do diabo por parte de Cristo. “E despojando os principados e as potestades,
publicamente as expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz” Colossenses 2:15.
“Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes
também ele igualmente participou para que por sua morte destruísse aquele que
tem o poder da morte, a saber, o diabo”. Hebreus 2:14. Por essa razão o Evangelho
deve proclamar
o estabelecimento do Reino da Graça, para podermos dessa maneira sermos
justificados pela divina graça de Deus, “sendo justificados gratuitamente...” Romanos
3:24 – A Bíblia de Estudo Almeida, no Dicionário que acompanha esta Versão,
encontramos a seguinte definição de Justificação: “Doutrina detalhadamente
explicada por Paulo nas suas Epístolas aos Romanos e aos Gálatas. Ali, ensina que
a justiça de Deus se revela no Evangelho, porque coloca o pecador em correto
relacionamento com Deus. Este atua assim não porque o pecador mereça esse novo
relacionamento, mas por causa de Cristo, que, com a sua morte sacrifical, expio os
pecados, dessa maneira, os pecadores que crêem no Evangelho são perdoados e
restaurados à comunhão com Deus por meio de Cristo, unidos a ele, participam de
sua justiça e são aceitos por Deus”. Pág. 66.
Quem hão de ser os que entrarão agora no Reino da Graça? São aqueles que
necessitam da graça divina, porquanto graça significa favor ou misericórdia para
com aqueles que são pecadores e indignos. Como Jesus mostrou na parábola da
grande ceia onde os convidados são tirados das ruas e becos da cidade, os pobres
os aleijados, os cegos e os coxos (Lucas 14:21). E por estes convidados ao Reino
que Cristo intercede (Isaías 53:1 comparada com Isaías 63:5). Por eles o Senhor já
fez expiação e já satisfez a justiça em seu favor. Entre Deus e estes estranhos
convidados só fica a misericórdia, a infinita misericórdia. Por que isso é assim?
Porque a graça significa ser aceito apesar de ser inaceitável. E ser completamente
compreendido e completamente perdoado. Os que procuram se fazer dignos assim
mesmos, por seus próprios méritos, por sua experiência, por sua aptidão ou
edificação cristã estão cavando profundas valas diante das portas do Reino que
nunca poderão atravessar. Só pela graça, não por méritos.
Se não fossem os pecadores os convidados ao Reino ele não seria o Reino da
Graça, por isso os que estão justificados são aqueles que estão dentro do Reino,
tirados das trevas e restaurados como filhos de Deus.
Podemos lembrar o homem que foi socorrido pelo bom samaritano. Cristo, o bom
samaritano, aplica vinho e azeite nas feridas do pecador e o conduz até a estalagem
para o tratamento final. Encomenda o homem aos cuidados da pessoa responsável
pela estalagem com a promessa de pagar tais serviços em seu retorno. O paciente
começa a se recuperar. Todavia, nenhuma coisa poderia fazer mais dano do que
esse doente imaginar que poderia se recuperar sozinho. Ele precisou de todos os
cuidados. Assim é a graça de Deus. No estaleiro da graça ficam internados aqueles
que são objetos de cuidado e solicitude especial de Deus, é aqui que eles
encontram conforto e consolação.
Todo aquele que entrou no Reino da Graça pelas portas da justificação e se
manteve nele será herdeiro e cidadão do Reino da Glória. Assim como uma grande
mudança, o novo nascimento, tomou lugar em nossa vida, quando entramos no
Reino da Graça, também haverá de ocorrer uma grande mudança antes de
entrarmos no Reino da Glória. Esta mudança final ocorrerá na ocasião da
ressurreição se estivermos mortos, ou na glorificação, se estivermos vivos, quando
Jesus voltar.
Iniciamos esta aula considerando os dois grandes eventos do Evangelho que se
resume agora em duas grandes verdades. A verdade da justificação pela fé (O
Reino da Graça) e a verdade da vida eterna de fato (O Reino da Glória). Somente
compreendendo em toda a sua plenitude a primeira verdade é que terá significado e
esperança a doutrina da segunda vinda de Cristo.
Portanto, concluímos que o Evangelho nesses dois aspectos, eventos e verdades e
a maior obra de Deus. Nunca houve nem haverá maior ou mais poderosa obra de
Deus do que no Evangelho, pois, resume-se no que Deus já efetuou em Cristo Jesus
e o que fará por ocasião da segunda vinda. Nenhuma experiência humana pode
igualar esta obra já consumada e realizada. Isto é soteriologia. Salvação plena em
todos os aspectos.

03 - OS SETE ASPECTOS DA SALVAÇÃO
Neste estudo você compreendera de uma forma mais plena os vários aspectos que
nos demonstram a atual posição em que o crente se encontra e sobre quais os
processos que decorreram desde nosso primeiro contato com Cristo até este
momento em que somos considerados filhos de Deus.
O estudo de hamartologia (de hamartia = pecado) nos mostrou que o homem
(tratamento genérico, isto é, tanto homem como mulher) sem Deus ocupa uma
posição negativa por causa da alma contaminada, até o momento em que faz um
concerto definitivo e obtêm uma vida digna diante de Deus mediante a justificação. O
homem sem Deus é um devedor, um inimigo, um escravo, um corrupto, um morto e
um estrangeiro diante do Criador. O homem sem Deus, enquanto não obtêm os
benefícios do “único ato de justiça” Romanos 5:18, carece de perdão, justificação,
reconciliação, redenção, santificação, novidade de vida e finalmente o homem
sem Deus, como um desconhecido, necessita de adoção. Estes são os sete
aspectos (algumas vezes chamados de “doutrinas”) da salvação (Grego = soter).
Estes sete aspectos estabelecem de forma clara e categórica o lado Divino no
plano do resgate do homem perdido em função do pecado (grego = hamartia). O
lado humano, e alias o único, é a aceitação desse plano de resgate. Portanto,
deixamos esclarecido que estes sete aspectos da salvação são as Obras de Deus
na vida daquele que aceita esse plano de resgate.
Poderíamos considerar estes sete aspectos da salvação como estágios de
crescimento cristão? Não. Não são passos num processo evolutivo de salvação,
nem degraus numa escada de redenção. Quando o pecador reconhece sua posição
alienada de Deus e aceita o plano de resgate e ele aceita tudo o que já foi feito por
ele, o Espírito Santo atribui todos os benefícios ou aspectos da salvação
simultaneamente. Por exemplo: Quando aceita, essa é a parte do homem, Deus o
perdoa em Cristo, o justifica de toda falta, é reconciliado com Deus, remido,
considerado santo, santificado, obtêm uma nova vida (novo nascimento) e
finalmente ele como nascido de novo, nasce na Família de Deus, sendo adotado
como filho verdadeiro.
O apóstolo Paulo explica em suas cartas estes sete aspectos da salvação, pois a
notícia dos quatro evangelhos é que Jesus morreu numa cruz, e falam de forma
biográfica dessa morte, e as Cartas explicam a razão de Sua morte.
Primeiro Aspecto da Salvação - Perdão.
Já falamos que o homem sem Deus é considerado um devedor diante de Seu
Criador (leia com atenção – Lucas 7:41-47), e como tal, para cancelar a dívida
necessita do perdão de Deus, ele tem que ser perdoado. Isto é fácil de
compreender, pois o preço do pecado já foi pago por Cristo Jesus. O perdão
encontra seu verdadeiro lugar na graça de Deus (Veja Efésios 1:7, onde se
estabelece um elo de ligação perfeita entre remissão de pecados [perdão] e a Graça
de Deus).
A base do perdão de Deus para com o pecador se fundamenta no sacrifício de
Jesus (Mateus 26:28 – onde o sangue de Jesus é o elemento fundamental na
remissão dos pecados). Este perdão de Deus é válido desde o momento em que o
homem aceita (crendo com fé) em tudo o que Deus fez em Seu Filho Cristo Jesus
(Atos 10:43).
Leituras Bíblicas sobre o perdão – Lucas 24:46 e 47; João 1:29; Romanos 3:25;
João 3:16-18 e verso 36.
A bíblia explica e explicava isso em símbolos no Antigo Testamento, que a dívida
pelo pecado deveria ser paga antes do perdão, e Cristo foi nosso substituto
respondendo pelo débito, agora como novas criaturas somos livres do débito e não
mais devedores pelo pecado (considere Atos 2:38 e analise a importância do
batismo como expressão e demonstração de aceitação por parte do homem do
plano de resgate).
E os pecados do cristão? Da mesma forma como o perdão é oferecido ao pecador,
da mesma forma ele é também oferecido ao cristão. A Palavra de Deus nos ensina a
estar em constante vigilância, vigiando e orando, da mesma forma nos ensina de
inúmeras maneiras que devemos andar no Espírito, mas às vezes não vigiamos o
suficiente e em lugar de andar no Espírito nos desviamos pelos atalhos do “antigo
homem”, então devemos buscar o perdão de Deus, será que deveríamos nos batizar
de novo? Não. É óbvio que não! Desde que não perdemos nossa conversão, e nem
deixamos de aceitar o que Cristo já fez. Um filho quando comete uma pequena “arte”
não deixa de ser filho. É em Cristo que devemos buscar forças para evitar o mal, e
mesmo que não consigamos, nosso possível erro não quebra nossa relação com
Deus, não entanto, é certo que se o pecado é separação de Deus, um filho pode se
separar do Pai, por um momento ou por toda a eternidade. A escolha é sempre do
homem.
Segundo Aspecto da Salvação - Justificação
Já estudamos em detalhes o significado de justificação. Perceba agora que em
relação com o Perdão (primeiro aspecto) é notória a compreensão dos atributos de
Deus. Como Pai Bondoso, Compassivo e Cheio de Misericórdia – Deus perdoa.
Mas, no Seu atributo de Juiz, Deus justifica. O perdão elimina os erros cometidos, a
justificação nos livra da condenação da lei.
Deus é Juiz, e como tal Sua tarefa é condenar o pecador, porém, num ato legal
agora Ele declara que a justiça foi satisfeita em relação ao réu e ele será justificado,
está livre da condenação.
Leitura Bíblica: Êxodo 23:7; Salmo 51:4 Provérbios 17:15; Romanos 3:4; Gálatas 5:4
e Gálatas 2:16.
Portanto, a justificação é o oposto de condenação, pois, a condenação pronuncia
que o réu é culpado e a justificação o declara sem culpa.
Não podemos confundir. A justificação vem do que Cristo já fez por nós, mas a
transformação vem do que Cristo faz em nós. A justificação é um ato, enquanto que
a transformação é um processo.
Ao aceitar pela fé a justificação o homem a alcança. A fé, no entanto, não constitui
mérito de justificação, a base, lembre-se, é o sacrifício de Cristo. O exercício da fé
no coração do homem favorece a graça da justificação (Atos 13:39; Romanos 4:3, 5,
11, 16; Romanos 10:4 e 10). Uma vez justificado o homem deve caminhar com
Deus.
Terceiro Aspecto da Salvação – Reconciliação.
Uma leitura atenta de Colossenses 1:21 demonstra que éramos estranhos e
inimigos, por causa de nossas obras más, isto é, nos éramos, como todo pecador,
porém, agora (note-se o “agora” do escritor da Epístola) Deus nos reconciliou. A
reconciliação como um ato de Deus. É Deus quem reconcilia, portanto, não use mais
a expressão: “Me reconciliei com Deus”. Não foi você que se reconciliou, FOI DEUS.
O homem sem salvação vive em oposição ao governo de Deus, portanto num
estado irreconciliável, este estado ou posição não permite que o homem mantenha
uma comunhão, e nem comunicação ou mesmo um contato amigável com Deus, daí
entendemos da necessidade de reconciliação. Se a salvação oferecesse apenas
perdão e justificação, mas mantivesse o homem longe de Deus, não seria completa.
Vem de Deus a iniciativa de reconciliar o homem, remover a inimizade e separação
(ler atentamente: 2a Coríntios 5:18-21) e promover a paz (Colossenses 1:20-22). A
barreira imposta pelo pecado foi removida com a morte do Cordeiro e o homem
passa então a viver em submissão a Deus, tendo paz, comunhão e acesso ao Pai
(Efésios 2:17, 18; João 14:6).
Quarto Aspecto da Salvação – Redenção.
A escravidão é fato consumado na vida de quem não conhece e não aceita o que foi
realizado em seu favor por Deus. O homem sem Deus está preso, algemado com
correntes ao próprio inferno. O pagamento de um preço pode colocar em liberdade
o homem deste jugo. A palavra redimir vem do grego “agorazo” (Apocalipse 5:9 em
comparação com Romanos 3:24 e 1a Pedro 1:18), que aqui significa adquirir no
fórum. Também tem sua origem em “axagorazo” (como em Gálatas 3:13), onde
significa adquirir fora do fórum. E ainda uma terceira palavra grega “lutroo” (como em
Lucas 24:21) que tem o sentido de libertar por um preço.
Lembre que “Liberdade” é um dos significados de “soter”.
A verdade é ensinada por Jesus nestas palavras: “Em verdade, em verdade vos digo
que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” (João 8:34).
O homem é escravo do pecado, e como escravos estão em servidão a outro senhor
(João 8:44), portanto, necessita de redenção, não pode alcançar libertação por
esforço próprio; a redenção vem de Deus (Romanos 7:14).
Voluntariamente e com precioso sangue, Cristo deu Sua vida por preço de liberdade
perfeita (Mateus 20:28; Marcos 10:45; 1a Timóteo 2:6; Colossenses 1:14; Tito 2:14).
Por essa razão Cristo é tudo em todo.
Nota: os aspectos de santificação, novo nascimento e adoção, serão tratados na
próxima aula.
Estudamos na aula passada quatro aspectos da Salvação, estudemos agora a
continuação desses aspectos:
Quinto Aspecto da Salvação – Santificação.
O que seria santificação? – “Falo como homem, pela fraqueza da vossa carne; pois
que, assim como apresentastes os vossos membros para servirem à imundícia e à
maldade para a maldade, assim apresentai agora os vossos membros para servirem
à justiça para a santificação”. – Romanos 6:19.
A idéia básica de santificação na Bíblia é “separação” – A Bíblia de Estudo
Almeida define assim no Dicionário: “Separar uma pessoa, um objeto ou mesmo
uma instituição para servir a Deus com dedicação e amor. Deus mesmo santifica o
seu povo (João 17:17 e 19; 1a Tessalonicenses 5:23; 2a Tessalonicenses 2:13; 1a
Pedro 1:2) Aqueles que foram santificados são seus santos”. Pág. 82.
O significado essencial da palavra hebraica “qodesh” é em grego hagiazo que
significa “separar”. A palavra hebraica deriva da raiz “qad” que se traduz por “cortar”,
assim sendo, o que é santo deve estar separado dos outros, está numa classe,
categoria e posição especial, e está designado para um propósito especial (1a Pedro
1:15-16). A santidade é o mais importante atributo de Deus dado ao homem.
“Hagiasmos” (santidade e santificação) ocorre dez vezes nos escritos do Novo
Testamento – Romanos 6:22; 1a Coríntios 1:30.
“Hagiosune” (santidade) ocorre por três vezes (Romanos 1:4; 2a Coríntios 7:1), e
temos ainda “hagiates” e “hagiago”.
Temos algumas leituras sobre santificação: (João 17:17; Atos 20:32; Atos 26:18; 1a
Tessalonicenses 5:23, etc). E alguns textos sobre santidade (Romanos 6:19 e 22;
Efésios 1:4; 1a Coríntios 3:17, etc).
Destacamos, porém, que a santificação, por sua vez tem dois aspectos:
Consagração: Na sua aceitação a santidade de Cristo é imputada ao crente
(imputar: termo técnico que significa atribuir a alguém uma característica que não
tinha antes). Uma leitura necessária é 1a Coríntios 1:30 onde encontramos a palavra
santificação associada a outras que já estudamos. Em Cristo nos somos santificados
mediante Sua oferta pelo pecado. Leitura bíblica: Hebreus 10:10.
Pureza Interior: O crente deve ser santo em seus pensamentos, ações e atitudes
perante Deus e deve estar sempre junto da verdade (João 17:17). O apóstolo Paulo
diz que a Cristo será apresentada uma Igreja sem mancha nem rugas, isto é, um
Corpo santificado (Efésios 5:25-27).
Podemos saber em que momento começa a santificação? Sim! No momento exato
em o pecador aceita o que Deus fez em seu favor, do momento da aceitação pela fé,
ele agora já está pisando solo santificado, e deve se manter em santidade enquanto
está junto de Cristo, a fonte da santificação. Agora, ao começar nesse ponto, o
crente está pronto para crescer em graça e sabedoria (2a Pedro 3:18; 1a
Tessalonicenses 3:12-13).
Nesta posição de santidade imputada (atribuída e não conseguida por mérito
próprio) somos descritos como templo e santuário de Deus e Jesus (1a Coríntios
3:16-17).
É bom poder ser um vaso de honra ante os olhos de Deus e ser santo perante o
Todo-Poderoso, pronto para ser útil no empenho da causa justa da Obra; é bom ser
amigo, livre e separado para falar da salvação aos perdidos que ainda não
encontraram esses atributos de Deus para sua vida.
Sexto Aspecto da Salvação – O Novo Nascimento Bíblico.
Tudo quanto a graça tem feito a nosso favor pela obra de Cristo foi com o fim de nos
reconciliar com Deus, mediante nossa libertação do domínio do pecado, gerando em
nós uma vida nova e santificada pelo poder do Espírito Santo em íntima ligação com
Ele, tornando-nos herdeiros da vida eterna que fruiremos em Sua presença.
Diz a Palavra de Deus: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus, por
meio de nosso Senhor Jesus Cristo; pelo qual também temos entrada pela fé a esta
graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus”.
Romanos 5:1-2. Quando cremos em Deus e aceitamos o Senhor Jesus Cristo como
nosso Salvador pessoal, pela ação do Espírito Santo, nos somos regenerados
mediante o novo nascimento espiritual. Tornando-nos “filhos de Deus” e membros do
Corpo de Cristo que é a Sua Igreja invisível (João 14:17 e 26; 1a Coríntios 12:27;
Efésios 6:10-12; Romanos 8:9-11).
Disse Jesus: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo,
não pode ver o reino de Deus... Aquele que não nascer da água e do espírito, não
pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e que é nascido do
Espírito é espírito”. João 3:3, 5-6. As palavras do Senhor Jesus não deixam qualquer
dúvida sobre a necessidade absoluta do novo nascimento. Jesus realça a
necessidade de nascermos não só da água, como também do Espírito. Se o batismo
da água é um símbolo exterior, que às vezes pode ficar despercebido ou esquecido
no tempo, o batismo do Espírito deve ser sempre presente e manifesto, pois é o
poder interior da vida nova do cristão. Nos somos nascidos naturalmente da vontade
da carne, somente nos nascemos do Espírito, quando aceitamos pela fé ao Senhor
Jesus Cristo como nosso Salvador pessoal e nos dispomos a continuar nessa
aceitação. Lucas 6:46.
A operação do Espírito Santo, através da Palavra de Deus, produz em nós um novo
ser moral ou espiritual, de que resulta a manifestação dum caráter inteiramente
novo. O apóstolo João afirma: “Mas, a todos quanto o receberam, deu-lhes o poder
de serem feitos filhos de Deus; a saber; aos que crêem no seu nome; os quais não
nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas
de Deus”. João 1:12-13.
O apóstolo Pedro diz: “bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que
segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança,
pela ressurreição de Jesus Cristo, dentre os mortos... sendo de novo gerados não de
semente corruptível, mas de incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que
permanece para sempre”. (1a Pedro 1:3 e 23).
Escreve também o apóstolo Tiago: “segundo a sua vontade, ele (Deus) nos gerou
pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias de suas criaturas”.
(Tiago 1:18).
Paulo ainda esclarece: “Tendo sido sepultados juntamente com ele (cristo) no
batismo, no qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus
que o ressuscitou dentre os mortos”. (Colossenses 2:12). “E assim, se alguém está
em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas”.
(2a Coríntios 5:17).
Uma leitura atenta dos escritos apostólicos demonstra que o novo nascimento é uma
obra de Deus, de Sua Vontade.
Antes que qualquer pessoa possa compreender as verdades divinas reveladas pelo
espírito santo, através da Palavra de Deus, precisa “nascer de novo”. Não existe no
homem natural, caído como está sob o domínio do pecado, qualquer capacidade
para compreender e apreciar os pensamentos de Deus. – “Ora, o homem natural
não aceita as coisas do espírito de Deus, porque lhes são loucuras; e não pode
entendê-las porque elas se discernem espiritualmente”. (1a Coríntios 2:14).
A nossa inclusão na morte e ressurreição de Cristo é um fato fundamental do plano
de salvação, mas é de suma importância permitir que isso seja real, pela aceitação
verdadeira e fiel desse plano de redenção divina.
Atenção: Crer que as figuras de linguagem “morrer ou ser crucificado ou sepultado
com Cristo” afirmem a extinção imediata e total da natureza humana, incluindo toda
e qualquer inclinação para o mal, é crer em discordância com o contexto geral da
Bíblia. O estudo criterioso dessa expressão, dentro do contexto próximo em que está
inserida e considerando o ensino geral da Bíblia, indica que ela apenas lhe atribui
um sentido legal perante a justiça de Deus.
Já estudamos anteriormente que nascidos como descendência de Adão, da vontade
da carne, herdamos a natureza de Adão, os seus defeitos, a sua condenação, e
fomos considerados por natureza filhos da ira (Efésios 2:3), geração perversa (Atos
2:40), escravos do pecado (Romanos 6:6) e condenados à morte eterna (Gênesis
2;17; romanos 3;23; 6;23).
Também estudamos que a justificação nos declara justos, assim, do ponto de vista
legal a morte do “velho homem” aconteceu na Cruz, junto com Cristo. Porém, existe
grande diferença entre ser declarado justo e ser de fato justo. Ser declarado justo é
um ato da Graça Divina e absolutamente imerecido, este único ato se chama
“justificação pela fé” “ou morte com Cristo”. Ser justo, entretanto, é no sentido de
conformar de fato nossa vontade com a vontade de Deus. Isto é obra de toda uma
vida, e se chama “andar com Deus” ou “andar no Espírito”, de onde a palavra andar
indica uma progressão ou desenvolvimento.
O Tema da Salvação na Bíblia domina claramente cada fase e aspecto de sua
narrativa. Já comprovamos nas aulas anteriores que o Esquema, Projeto ou Plano
de salvação está contido plenamente na obra, isto é na ação salvadora de Deus.
Antes de considerar o aspecto de adoção, como o sétimo e último aspecto,
lembraremos alguns conceitos aprendidos que nos farão entender a relação da
adoção com a Redenção.
Já sabemos que a Obra de Deus se manifesta em duas grandes fases: A Obra de
Deus por nós em Cristo e a Obra de Deus em nós pelo Espírito Santo. Vemos aqui
claramente como a Justificação do pecador se opera pela ação da Trindade. Deus o
Pai, manifesta e atribui Sua Graça, bendita e gratuita Graça. Jesus, o Filho, efetuou
a salvação, sendo o Salvador, pagando o resgate e nos dando SOTER (salvação,
libertação e preservação). O Espírito Santo opera em nós a regeneração, como
obra posterior à justificação, transformando, modificando nosso caráter à
semelhança do caráter de Jesus. Quando estudemos a Obra salvadora de Deus em
nós veremos mais detalhes desta ação divina pelo Espírito Santo. Partimos do
pressuposto de que todos nos acreditamos na Trindade como Deus agindo em
benefício do homem pecador, note-se que se deixamos de lado, quer seja o Pai, ou
o Filho, ou o Espírito Santo, não acreditando que Seja Deus, a ação salvadora
estaria incompleta e o homem estaria conseqüentemente perdido. Razão pela qual
reafirmamos nossa fé na Trindade, pois a ação salvadora de Deus Trino está
justamente em que cada Pessoa desenvolve uma parte ou aspecto dessa ação
salvadora. Não podemos desacreditar de Deus o Pai, pois, segundo as Escrituras, o
Plano Redentor é revelado como tendo sido originalmente planejado na mente do
Senhor, pois a Bíblia revela como Deus manteve sempre o controle das atividades
humanas de maneira a nos levar a aceitar o que Ele já fez. Rejeitar o Filho, como
Deus agindo em benefício da humanidade, efetuando o plano, realizado em sua
vida, morte e ressurreição, isso seria fatal. O cumprimento do plano idealizado desde
a fundação do mundo é perfeito. Jesus, como executor do Plano de salvação, não
poderia ser apenas humano, igual a nós, pois o projeto estaria assim incompleto,
imperfeito, e não cumpriria as exigências requeridas, que é Deus efetuando a
Reconciliação do homem pecador. O Espírito Santo. Como deixar de fora o Espírito
que sendo Deus cumpre seu papel de efetuar a regeneração e atribuir ao homem os
benefícios da salvação, dando ao homem que aceitou a obra realizada pelo Pai e
pelo Filho a continuação desse plano, dando-lhe um novo nascimento, um novo
coração, guiando, ensinando todas as coisas e formando o novo homem em Cristo,
é o Espírito que realiza a Obra em nós. A grandiosidade da Obra Salvadora é
justamente a revelação de que A Trindade, em suas três pessoas, está envolvida,
participante e atuante em favor do homem perdido. Bendito Plano de salvação! Que
seria da humanidade sem esse Projeto de Vida?
Sexto Aspecto da Salvação – Adoção.
Já estudamos que os aspectos da salvação são sete, a saber: perdão, justificação,
reconciliação, redenção, santificação, novidade de vida e adoção, já estudamos seis,
estudemos agora o sétimo: a adoção.
Hamartia, ou seja, o pecado, nos afastou de Deus, estávamos longe (Efésios 2:13),
separados de Deus (Efésios 2:12), escravos do pecado (João 8:34). Todavia,
“hamartia” tirou também a paternidade original. Vejamos:
Uma Questão de Paternidade:
Leia: João 8:32 até 44.
Nesta narrativa de João encontramos mais uma outra séria discussão entre os
judeus e Jesus, a questão aqui era a questão da liberdade. Jesus fez uma
declaração assustadora aos ouvidos dos judeus: “e conhecereis a verdade e a
verdade vos libertará” João 8:32. A resposta imediata dos judeus foi apelar para a
paternidade patriarcal, pois acreditavam que sendo filhos, ou descendência de
Abraão, não eram escravos de ninguém. Jesus respondeu provando que o pecado é
que gera a escravidão (João 8:34), e não a origem judaica, Jesus provou que sendo
eles pecadores eram escravos. Os judeus não entendendo, pois não compreendiam
que hamartia é um estado da alma, insistem: “Nosso pai é Abraão” (João 8:39).
Finalmente elevam essa paternidade afirmando: “Nós não somos bastardos; temos
um Pai, que é Deus” (João 8:41).
A mais surpreendente verdade revelada na Bíblia e que Jesus confirma, é que a
humanidade, por causa de hamartia (pecado), perdeu a paternidade de Deus. Leia
com atenção João 8:44. Adão era filho de Deus (Lucas 3:38). Todo pecado
escraviza (João 8:34), aqui não se trata dos pecados individuais, não está falando
de atos pecaminosos, mas de hamartia, como um estado da alma, do pecado
(singular), Sendo assim, Adão perde sua liberdade, pois é vendido para o pecado
(Romanos 7:14). Quem é vendido, não é livre, quem tem um preço e fica no leilão da
praça para ser comprado é um escravo. Por isso Jesus falou para os judeus que o
escravo não ficava sempre em casa, a qualquer hora pode ser vendido (João 8:35).
Quem não é livre serve ao pecado como escravo (Romanos 6:6). Foi neste contexto
que Jesus falou sobre a paternidade do homem em pecado. O homem em pecado é
filho do Diabo.
Uma leitura atenta de 1a João 3:10 revela na sua maior profundidade a posição do
homem sem Deus. Ele está em outra família, ele não está na Família de Deus
(Gálatas 6:10; Efésios 2:19; Efésios 3:15). Então surge a pergunta: Como ser filho
de Deus verdadeiro?
Adão foi criado a imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1:26). Se Adão se
mantivesse na posição original, posição na qual foi criado, então seus filhos
herdariam essa imagem e semelhança de Deus, Adão pecou, e a sua descendência
perdeu esses atributos que são próprios dos filhos de Deus. E agora o livro de
Gênesis nos mostra o princípio fundamental da herança da humanidade.
“Viveu Adão cento e trinta anos, e gerou um filho à sua semelhança, conforme a
sua imagem, e lhe chamou Sete” Gênesis 5:3.
Sete era na verdade o terceiro filho de Adão, Abel foi morto, Caim banido da
presença de Deus, a raça continuaria pela descendência de Sete, assim diz a Bíblia,
ao dar a genealogia de Adão. Por essa razão as Escrituras estabelecem o princípio
fundamental da herança quando esclarece que Sete tinha a semelhança e imagem
de Adão e não mais de Deus. Um Adão escravo gerou um filho escravo, um Adão
que não transmite mais uma geração eleita e santa, mas uma geração separada de
Deus.
Duas famílias, dois pais. João 1:12-13 – mostra um claro e evidente contraste entre
os nascidos de Deus e os nascidos da descendência de Adão. Mostra como nascem
todos os homens (genérico), todos nascemos do sangue (sangue de Adão), pela
vontade da carne, vontade do homem. Mas, Jesus diz a Nicodemos: É necessário
nascer de novo, em outra família, porque o que é nascido da carne é carne (João
3:6), em outras palavras quem é nascido da carne, pela vontade da carne e do
homem, nasce em pecado. Jesus explicou a Nicodemos que quem não nasce de
novo NÃO pode ver o reino de Deus. Aqui não é uma questão de opção. Se nos
queremos entrar no Reino, agora no seu aspecto da Graça, e mais tarde, na
Segunda Vinda, no Reino da Glória, não temos escolha, temos que nascer de novo.
Isso significa que nosso nascimento natural deve-se completar com um nascimento
na Família de Deus. Foi então que Deus idealizou o Projeto Adoção. Esse Projeto
Adoção não é novo. Paulo explicou que já os israelitas o conheciam (Romanos 9:4),
o que significa que é tão antigo como a própria nação de Israel.
Este projeto de adoção tem dois aspectos legais: Adoção de Direito e Adoção de
Fato. Vamos explicar isto melhor, quem já estudou direito jurídico sabe como é:
Quando um pai de família está ainda vivo e ele assina o testamento em vida, seus
filhos passam a ser herdeiros, são, porém, herdeiros de direito, somente quando o
pai morre, os filhos passam a ser herdeiros de fato e só então eles podem fazer
uso da herança deixada pelo pai.
Gálatas 4:4-6 - Nos explica que a ação salvadora do Pai foi enviar seu Filho, para
resgatar os que estavam sob a lei (no seu aspecto legal de condenação), com a
finalidade de que recebêssemos a adoção de filhos. O mais importante está no
verso 6, onde se explica que pela razão de já sermos filhos, ou seja, pela redenção
em Cristo, pela salvação em seu aspecto de libertação, Deus envia a nossos
corações o Espírito de Seu Filho, e assim como Ele, Jesus, podia chamar a Deus de
Pai, nos também agora podemos clamar “Aba, Pai”. (Aba = aramaico que significa
uma expressão de amor do filho para com seu pai, como querido pai em português).
Romanos 8:15 – Paulo ensina que não recebemos o espírito de escravidão, isso
quando aceitamos a salvação, mas recebemos outro Espírito, o de Cristo, o Espírito
de Adoção, e repete aqui, pelo qual clamamos Aba, Pai.
Romanos 8:16 – O Próprio Espírito Santo, EM nós, testifica, ou seja, faz declaração
com nosso espírito que somos filhos de Deus. A adoção foi realizada, podemos ter
certeza disso. Pois, o verbo usado expressa a idéia de ser filhos agora, no presente
e não como um ato futuro.
Romanos 8:17 – Ora, se nos já somos filhos, então já somos também herdeiros,
herdeiros de Deus. De novo o verbo em tempo presente.
O que estão aguardando agora os filhos de Deus, herdeiros de Deus? Romanos
8:23 – Tendo as primícias (primeiros frutos) do Espírito, estamos aguardando a
redenção do nosso corpo, que será a adoção, não mais de direito, porém agora de
fato. Quando? No Reino da Glória.
E a imagem e semelhança de Deus? Uma leitura de Romanos 8:29; 1a Coríntios
15:49 e 2a Coríntios 3:18 respondem esta pergunta.
Definição do conceito: Profecia Messiânica. É geralmente reconhecido que o
Antigo Testamento registra as profecias da vinda de um grande Messias. Isto
significa literalmente um “ungido” (da palavra hebraica: Mashiach). Os “ungidos” no
período do Antigo Testamento eram, no caso, reis e sacerdotes. Tais profecias
deram ao povo judeu a esperança da libertação através desse Messias. Esta
esperança é comumente mencionada como a “Esperança Messiânica”.
O CONCEITO JUDEU DA PROFECIA MESSIÂNICA NO ANTIGO TESTAMENTO
ERA NACIONALISTA.
Este ponto de vista é estabelecido no Novo Testamento pela revelação do conceito
judeu da natureza do Reino de Deus. Os judeus sabiam que as Escrituras
profetizavam a vinda do Messias e do seu Reino (como exemplo: podemos citar - 2
Samuel 7:11-16; Isaías 9:6, 7; Jeremias 23:5, 6 Daniel 2:44). Tanto João Batista
como Jesus anunciaram que o Reino estava próximo. Como os judeus entenderam
estas palavras de João Batista e de Jesus? Os pontos a seguir revelam o conceito
nacionalista dos judeus com relação ao Reino e, conseqüentemente, seu conceito
materialista, ou seja, uma interpretação equivocada das profecias desse Reino.
1. Os judeus combativos.
“Naqueles dias apareceu João Batista, pregando no deserto da Judéia, e dizia:
Arrependei-vos porque está próximo o Reino dos céus”. Mateus 3:1-2.
“Desde os dias de João Batista até agora o Reino dos céus é tomado por esforço, e
os que se esforçam se apoderam dele”. Mateus 11:12.
O povo cria que João Batista era profeta e, assim sendo, desde o dia em que ele
anunciou que o Reino estava próximo, o povo se predispôs a pegar em armas e
derrubar o governo romano. Sua concepção puramente materialista e física do Reino
transformou o zelo pelo país, e transformaram a idéia de Deus em violência,
julgando que pela força pudessem derrotar os exércitos romanos e estabelecer o
Reino profetizado. Isto não lhes seria possível, mas, devido ao conceito nacionalista
sobre a natureza do Reino eles julgavam isso praticável.
Atenção: A idéia errada dos judeus quanto à natureza espiritual do Reino, sem ser
como um Reino da Graça, fez com que tanto a sua existência como nação com a
queda de Jerusalém no ano 70 d.C., como seu precioso lugar, como nação, no
Reino espiritual de Cristo se perdesse.
2. O povo Judeu como um todo. João 6:1-15, em especial os versos 14 e 15.
Depois que o povo presenciou a distribuição de alimento, feita por Jesus, em
quantidade suficiente para satisfazer mais de 5.000 pessoas, utilizando apenas dois
peixes e cinco pães, todos ficaram mais do que dispostos a recebê-lo como profeta e
rei; mas seu conceito da natureza do rei e de seu Reino demonstra ser apenas
nacionalista. Como é natural, ao pensarem no que tais poderes poderiam significar
quando aplicados à estratégia militar, eles tentaram arrebatar Jesus “para o
proclamarem rei”. Jesus, no entanto, rejeitou por completo seus intentos, pois o
Reino que viera estabelecer era de natureza, na sua primeira fase, espiritual.
Qualquer ponto de vista que afirme que Jesus veio para estabelecer o reino
profetizado no Antigo Testamento, na sua fase de Glória, mas não pode faze-lo
porque os judeus o rejeitaram, deve ser julgado incorreto com base na clara
afirmação desta passagem. Na verdade, aconteceu justamente o contrário: Jesus os
rejeitou.
3. Os judeus dirigentes. João 11:47-50
O ponto de vista nacionalista dos líderes judeus quanto ao Reino de Deus, a
reivindicação do próprio Jesus de ser o rei profetizado, e os poderes milagrosos,
levaram-nos a pensar que Ele cobiçava o trono de César. Sabiam que se Roma
viesse a pensar da mesma forma e observasse o grande número de seguidores de
Jesus (“se o deixarmos assim todos crerão nele”), a nação seria sumariamente
destruída pelo poder militar romano. Resolveram então matá-lo. João 11:53.
4. Pedro e os Apóstolos. Mateus 16:13-20, e a seguir versos 21 a 23.
Quando Jesus perguntou a Pedro quem Ele era, ele respondeu prontamente: “Tu és
o Cristo, o Filho do Deus Vivo”. Todavia, depois de extrair tal confirmação, Jesus
advertiu os discípulos “que a ninguém dissessem ser Ele o Cristo”. Logo após,
começou a anunciar sua morte pela crucificação. Mais uma vez Pedro responde com
lealdade: “Tem compaixão de ti, Senhor; isso de modo algum te acontecerá”. Jesus
de novo respondeu com palavras que talvez confundissem a Pedro: “Arreda!
Satanás... Não cogitas das cousas de Deus, e, sim, das dos homens”.
Nenhuma passagem revela mais claramente o que os discípulos na verdade
pensavam sobre o Messias, sua obra e seu reino. Jesus chamou Pedro de Satanás,
isto é, de adversário, dizendo que ele estava pensando nas cousas dos homens e
não nas de Deus. Pedro ficou, provavelmente, surpreso. Mas a verdade era de fato
essa. O conceito que Pedro fazia sobre o Messias, revoltava-se com a idéia da
crucificação. Sem a cruz, porém, não poderia haver redenção. Pedro, de fato opôsse
ao propósito redentor de Deus. Ele evidentemente não tinha até então
conseguido compreender o assunto. Esse o motivo pelo qual Jesus os advertiu a
não contarem a ninguém ser Ele o Cristo. A opinião deles confundiria ainda mais a
questão.
5. Os filhos de Zebedeu e sua mãe. Mateus 20:20-22 e Marcos 10:35-45
“Então, se chegou a ele a mulher de Zebedeu, com seus dois filhos e, adorando-o,
pediu-lhe um favor. Perguntou-lhe ele: Que queres? Ela respondeu, que no teu
Reino, estes meus dois filhos se assentem, um à tua direita, e o outro à tua
esquerda. Mas Jesus respondeu: Não sabeis o que pedis”. Mateus 20:20-22.
Quando a mulher de Zebedeu pediu que Jesus fizesse seus filhos sentarem-se à
sua direita e à sua esquerda no reino, revelou seu conceito nacionalista, materialista
e interesseiro sobre o Reino. Jesus então respondeu acertadamente: “Não sabeis o
que pedis”.
6. O Conceito dos discípulos depois da crucificação.
Lucas 24:13-21. A cruz dissipou dos discípulos a possibilidade real e imediata de
uma esperança messiânica. Como o seu conceito não se baseava na remissão dos
pecados e no estabelecimento espiritual do reino da Graça, ficaram desesperados
por perderem sua esperança com a morte de Jesus. Veja em especial Lucas 24 o
verso 21.
Atos 1:6. Até o dia da ascensão de Jesus, os discípulos mantiveram o seu
nacionalismo judeu como genuína interpretação da profecia do Antigo Testamento:
“Será este o tempo em que restaures o reino de Israel?”. Eles estavam ali, olhando
para Jesus ressuscitado, vencedor da morte, seria esse o momento? Seria agora?
Qual não foi a surpresa ao ver alguns minutos após Jesus subir aos céus. Vemos
nas Escrituras que só após o Pentecostes, com o poder do alto, que os discípulos
puderam compreender a verdadeira natureza espiritual da primeira fase do Reino,
sua natureza fundamentada na Graça.
O espírito nacionalista judaico fez com que muitos o rejeitassem, essa é a razão das
multidões gritando “crucifica-o”, porque os judeus interpretaram mal a obra,
ensinamentos e a morte de Jesus. Foi esse espírito nacionalista, local e material que
provocou a rejeição de Jesus pelo povo, não conseguiram acreditar que aquele
mesmo homem que entrou triunfante em Jerusalém, investido com caráter de rei
como “filho de Davi”, estivesse agora diante de seus olhos coroado de espinhos,
humilhado e açoitado pelos romanos, de vestes ensangüentadas e rosto abatido, a
esperança então se desfez. O triunfo nacional sobre os romanos sob a liderança de
um rei, morreu, e pediram a morte de Jesus. Não confiavam mais nele. Eis ai o
perigo de uma interpretação errada das Escrituras.
Interpretação correta das profecias Messiânicas.
Lucas 24:44-47 – Foi necessário um ato divino, Jesus “lhes abriu o entendimento
para compreenderem as Escrituras”. Foi necessário que os discípulos a caminho de
Emaús, compreendessem que o Cristo haveria de padecer... Padecer até a morte,
mas vencer a morte e ressuscitar dentre os mortos, e tudo isso para que? Para que
se pregasse o arrependimento para remissão de pecados, a todas as nações...
Estas palavras de Jesus quebraram todo o orgulho nacionalista, agora a salvação
não era mais uma questão nacional, era uma salvação e remissão de pecados,
efetuados pela morte e ressurreição do Messias, e esta boa nova deveria ser para
“todas as nações” – Oh! Que divina explicação. Era dessa maneira que agora
deveriam entender as profecias, pois Jesus lhes disse: “Importava que se cumprisse
tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. Veja
também Lucas 24:25-27, onde Jesus insiste que o seu sofrimento cumpriu todas as
profecias das Escrituras.
Algumas “teologias” modernas interpretam a morte de Jesus como um fracasso em
estabelecer o reino, pelo fato dos judeus o terem rejeitado. Mas este estudo
comprova que na verdade a morte e a ressurreição de Jesus foi o triunfo glorioso do
eterno propósito de Deus para a salvação da humanidade perdida, assim era predito
pelos profetas. Esse foi o meio de estabelecer Seu Reino da Graça e introduzir nele
todos os que são salvos pelo seu sangue (Apocalipse 1:5, 6).
Estudamos que a salvação para todas as nações, mediante Cristo, foi predita por
todos os profetas do Antigo Testamento. Essa linguagem profética, porém,
raramente foi apresentada de forma literal. Tal linguagem foi geralmente
apresentada em termos idealistas. Isto é, a salvação para todos aqueles que
aceitassem a redenção foi profetizada com uma terminologia descritiva, física,
material e nacionalista, que para o judeu era gloriosamente ideal. O que se
pretendia, entretanto, não era, de forma alguma, uma interpretação literal.
Já estudamos que pela salvação (soter), o Messias esperado não apenas
proporcionaria a salvação, ou somente a libertação, mas no seu significado pleno a
palavra soter também é “preservação” e para que esse aspecto tivesse pleno
cumprimento Deus desenvolveu o maior Projeto que a história já conhece, jamais
haverá um Projeto tão glorioso. Esse Plano é conhecido em teologia como Projeto
de Paz. Deus traçou um programa para que o salvo pudesse preservar a salvação.
Uma das graves conseqüências do pecado foi a perda de paz por parte do homem,
o pecado tirou sua paz e colocou em troca o medo no coração do homem. O
princípio fundamental do medo pode ser encontrado no mesmo lugar em que o
homem perde sua posição original. Quando Deus pergunta ao homem: Onde estás?
A pergunta, como já sabemos foi para que o homem criasse consciência de que
tinha mudado de lugar, de posição ou estado, a resposta do homem reflete o grave
dano do pecado: “tive medo...” Gênesis 3:9-10. Medo é exatamente o contrário de
paz, quem vive em temor não tem paz no coração, por essa razão a Salvação (soter)
em seus três aspectos significativos deveria também trazer paz ao coração humano,
arrancar de seu íntimo o mais terrível e pernicioso mal: o Medo.
Procuramos mostrar, a seguir, que o propósito de Cristo é claramente estabelecido
em vários textos bíblicos como sendo redentor (Mateus 1:21; 20:28, 1a Timóteo 1:15,
etc.). Porém, a obra salvadora de Cristo inclui um aspecto que tinha sido conhecido
na época do Antigo Testamento como Projeto de Paz. Quando Israel ou mesmo
mais tarde Judá passava por períodos de guerras, conflitos, violência e agressões,
Deus colocava na boca de seus profetas palavras de paz numa linguagem ideal.
Vamos ler atentamente a profecia messiânica que encontramos em Isaías 9:6-7, de
onde destacamos as seguintes frases: “Príncipe da Paz” “para que se aumente o
seu governo e venha paz sem fim...”.
Uma outra profecia reconhecidamente messiânica está em Miquéias 5:2, 5, de onde
tiramos a frase “Este será a nossa paz”.
Ambas as profecias falam dos atributos reais do Messias. Não há qualquer dúvida
que estas palavras se aplicam a Jesus. Os anjos cantaram a Sua missão de “paz” no
Seu nascimento (Lucas 2:14). Paulo escreveu que “Ele é a nossa paz”, que
“evangelizou paz” e fez a paz entre Deus e o homem (Efésios 2:14-17).
O Projeto de Paz.
Quando os homens são justificados, eles obtêm “paz com Deus, por meio de nosso
Senhor Jesus Cristo” (Romanos 5:1). Cristo traz “a paz pelo sangue da sua cruz”
quando efetua a reconciliação entre pecadores e Deus (Colossenses 1:20-22). Esta
salvação do pecado, dada por Cristo, cumpre o propósito por Ele estabelecido.
Analisemos agora com cuidado o lugar da paz: “Seja a paz de Cristo o árbitro em
vossos corações, à qual, também, fostes chamados em um só corpo: e sede
agradecidos” (Colossenses 3:15). Explicando o significado desse Corpo na mesma
epístola Paulo diz: “Ele é a cabeça do corpo, da igreja...”. Colossenses 1:18. Note
cuidadosamente que é para “a paz de Cristo” que somos chamados em um só corpo
(a igreja). Desde que idealmente a Igreja é composta de todos aqueles que foram
salvos e têm, portanto, paz com Deus, a paz da profecia. É o lugar para preservar a
salvação.
Cabe, no entanto, destacar que a Igreja, não pode ter a mesma paz do mundo, nem
a que o mundo oferece, pois a paz de Cristo é diferente: “Deixo-vos a paz, a minha
paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo” João 14:27. A paz de Deus excede
todo o conhecimento (Filipenses 4:7), pois o mundo não conhece e nem conhecerá
essa qualidade de paz enquanto não tiver aceitado o glorioso Projeto de Deus.
Dentre o fruto do Espírito, o que segue ao amor é justamente esta qualidade que
deveria idealmente ser encontrada na Igreja, ou seja, amor em primeiro lugar, em
ordem prioritária, paz em segundo lugar. Paz no Corpo de Cristo. Jamais brigas e
politicagem por cargos administrativos, brigas entre irmãos, jamais (Hebreus 12:14).
O Projeto de Deus poderia muito bem se chamar Projeto Ekklesia, pois ele foi
idealizado pelo Criador desde o mesmo momento em que o homem pecou, desde o
momento em que Deus viu no coração do homem a terrível marca do medo. Medo é
pecado, como é pecado apelar para o medo e trazer assim pessoas para a igreja. As
pessoas que estão na igreja porque estão com medo do inferno, não tem a paz de
Deus. O verdadeiro motivo para estar no Corpo é porque encontraram a paz e não o
medo. Você já percebeu que muitas pessoas tomam suas decisões por causa do
medo: medo de ficar só, medo de ficar pobre, medo de perder o trabalho, em fim, é o
medo que tomou o controle e não é mais a paz e liberdade que temos em Cristo.
O Projeto Ekklesia estava no coração do Pai, e Cristo disse: Edificarei a minha
Igreja, dando assim cumprimento a profecia. Uma simples comparação entre dois
textos, explicam porque o Projeto Ekklesia era desde o começo um Plano de Deus.
Não vamos nos aprofundar demais nesta aula sobre a Igreja, pois há uma disciplina
completa “Eclesiologia” que tratará do tema em todos os seus aspectos.
04 - UM ESTUDO DE HEBREUS 6:4-6
Apostasia Recuperável?
O Texto a seguir foi extraído de: Hebreus – Introdução e Comentário, de Donald
Guthrie, Editora Mundo Cristão, 1983, páginas 132 até 137.
Que há uma conexão específica entre a declaração que acaba de ser feita e a
discussão acerca da apostasia fica claro por causa da conjunção: pois (grego =
gar). Há pelo menos uma possibilidade teórica de que a maturidade espiritual possa
revelar-se inatingível. É importante para uma compreensão verdadeira deste
versículo reconhecer este contexto. É igualmente importante notar que a declaração
depende do cumprimento de uma condição, conforme demonstra a cláusula com
“se” no v. 6.
As várias maneiras que este autor (de Hebreus) adota no uso da palavra impossível
(adunaton) são instrutivas. Aqui, emprega-se para a impossibilidade do
arrependimento em certas circunstâncias; em 6:18, acerca da impossibilidade de
Deus revelar-Se falso; em 10:4, acerca da incapacidade do sangue dos animais de
remover o pecado; e em 11:6, acerca da impossibilidade de agradar a Deus sem fé.
Em cada caso, não há provisões para um meio-termo. Todas estas declarações são
absolutas. A presente declaração, no entanto, é a que causa mais dificuldade e pode
ser corretamente compreendida somente quando todas as facetas do caso forem
examinadas na sua totalidade. Há quatro verbos para descrever os sujeitos da
impossibilidade: (i) iluminados (phõtisthentas), (ii) provaram (geusamenous), (iii) se
tornaram participantes (metiochous genêthentas), (iv) provaram a boa palavra
(kalon geusamenous). Aparentemente, os três últimos verbos visam tornar claro o
sentido em que o primeiro é usado. A idéia da iluminação é característica do Novo
Testamento em relação à mensagem de Deus ao homem (cf. também 10:32 nas
outras passagens sobre a apostasia). Isto é especialmente verdadeiro no que diz
respeito ao Evangelho segundo João em que Jesus declara ser a luz do mundo
(8:12; cf. 1:9). Outro paralelo é 2 Coríntios 4:4, que diz; “o deus deste século cegou
os entendimentos dos incrédulos, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho
da glória de Cristo”. Sempre que a luz tem brilhado nas mentes individuais, tem
vindo alguma compreensão da glória de Cristo. (Bruce, em Commentary on the
Epistle to the Hebrews, New London Comentary, London, 1965, página 120) acha
tentadora a opinião de que a iluminação se refira ao batismo e ao provar a
eucaristia, mas aceita, especialmente neste último caso, uma referência mais ampla
também. (Hugles em A Commentary on the Epistle to the Hebrews, Grand
Rapids, 1977, página 208) cita exemplos de escritores patrísticos que adotaram este
tipo de interpretação. Ele mesmo, porém, prefere um sentido metafórico, i.é, o
sentido de experimentar a bênção. Aqueles que são referidos aqui, portanto, devem
ter alguma revelação inicial de Jesus Cristo. Este conceito é reforçado pelas outras
três declarações que são feitas.
A idéia de provar o dom celestial subentende mais do que um mero conhecimento
da verdade. Subentende a experiência dela. Este é um uso lingüístico do Antigo
Testamento (cf. Sl 34.8). No Novo Testamento, 1 Pedro 2:3 contém a mesma idéia.
Há um desenvolvimento entre saber acerca do alimento, até mesmo gostar da
aparência dele, e realmente prova-lo. Ninguém pode apenas fingir provar um
alimento. Naturalmente, nem sempre o provar é agradável, e no caso hipotético que
o escritor esta supondo, claramente não o era. O dom celestial não foi apreciado.
Mas o que significa esta expressão? Em nenhuma outra parte do Novo Testamento
“o dom celestial” (Tes doreas tes apouraniou) é mencionado, embora a idéia de um
dom de Deus ocorra várias vezes, principalmente em relação ao Espírito Santo (cf.
At. 10.45; 11.17). Noutros casos, é ligado com a graça de Deus (Rm 5.15; Ef 3.7;
4.7), onde abrange a totalidade da dádiva da salvação. Na presente declaração, o
conteúdo do dom não é definido, mas a sua origem não fica em dúvida. Embora
tenha sido sustentado que “celestial” descreve, não a origem, mas, sim, a esfera em
que o dom exercido, ainda demonstraria que o dom não é de feitio humano. Deve
ser notado que a palavra usada aqui para “dom” é usada exclusivamente para dons
espirituais no Novo Testamento.
A terceira declaração está estreitamente vinculada com a anterior, porque o tipo de
pessoa que o escritor está imaginando consiste daqueles que se tornaram
participantes do Espírito Santo, o que se harmoniza com o dom do Espírito. Mesmo
assim, é provável que isto seja visto como um aspecto distintivo na sua experiência.
Já encontramos a palavra para “participantes” (metochoi) em 1.9; 3.1, 14, e a
encontramos outra vez em 12.8. A única outra ocorrência da palavra no Novo
Testamento é em Lucas 5.7, onde significa: “companheiros”. Visto que em 3.1 o
escritor está se dirigindo àqueles que participam da vocação celeste, o mesmo
sentido deve ser pretendido aqui. A idéia de participar do Espírito Santo é notável.
Isto imediatamente distingue a pessoa daquela que não tem mais do que um
conhecimento superficial do cristianismo.
A quarta declaração: e provaram a boa palavra de Deus, introduz ainda outro
aspecto da experiência cristã. A repetição da metáfora do “provar” demonstra a
importância que o escritor ligava a ela. Mas desta vez é uma questão de provar a
“bondade” (kalon), palavra esta que incorpora em si alguma noção de beleza. Inclui
a atratividade bem como a bondade moral. É contrastada com o mal em 5.14.
Descreve uma boa consciência em 13.18. É algo altamente desejável. Isto se
encaixa bem com a metáfora. É agradável ao paladar. Além disso, não é por
acidente que o que é provado não é a própria palavra de Deus, mas, sim, a sua
bondade. A distinção é importante. É possível abordar a palavra de Deus de modo
sincero, mas sem efeito. No presente caso, os que provaram a bondade estavam
bem imersos na experiência cristã. A frase descritiva “palavra de Deus” (Theou
rhema) ocorre outra vez em 11.3 e nalguns outros lugares no Novo Testamento, mas
não é tão freqüente quanto a expressão mais geral, porém paralela (logos tou
Theou), que ocorre nesta Epístola em 4.12 e 13.7. A presente frase chama a
atenção mais a uma comunicação específica de Deus do que a uma mensagem
geral de Deus. De fato, pode, mais provavelmente, referir-se à experiência de Deus
que a pessoa conhece na conversão, quando a maravilhosa condescendência de
Deus para com os pecadores raia sobre a alma em toda a sua beleza
resplandecente.
Mas o provar também chega “a bondade dos poderes do mundo vindouro” que
parece uma idéia estranha. Se a era do porvir ainda é futura, conforme sugerem as
palavras (mellontos aionos), não pode ser que o escritor quer referir-se a uma
esperança remota. Visto que emprega “estes últimos dias” (1.1) para denotar os dias
da inauguração do Messias, é bem possível que aqui esteja pensando no antegozo
presente de uma experiência que não chegará ao seu clímax até à segunda vinda.
De qualquer maneira, está mais interessado nos poderes da era vindoura, o que
sugere a operação das mesmas influências poderosas que terão pleno domínio
naquela era futura.
Finalmente, a parte condicional da frase aparece: “se então cometerem a
apostasia” (no grego, o condicional é expresso por um particípio: parapesontas –
ARA: e caíram). A declaração que segue é aplicável somente quando a experiência
da iluminação e da participação é ligada com uma apostasia completa (conforme é
indicado pelo tempo do aoristo). A idéia da apostasia é expressa por um verbo que
ocorre exclusivamente aqui no Novo Testamento. O significado da sua raiz é “cair
para o lado”, i.é, o desvio de um padrão ou caminho aceito. A declaração
subseqüente neste caso torna clara a natureza irrecuperável da apostasia. É dito
que de novo estão crucificando para si mesmo o Filho de Deus, e o verbo composto
empregado (anastaurountas) demonstra que o escritor está pensando em uma
repetição da crucificação. Não poderia ter expressado a seriedade da apostasia em
termos mais enfáticos ou mais trágicos. Enquanto pensa naquilo que os inimigos de
Jesus fizeram a Ele, até mesmo vê aqueles que se desviam dEle como igualmente
responsáveis. Talvez esteja pensando que tais apóstatas seriam mais culpáveis do
que àqueles que originalmente clamaram “crucifica-o”, que nunca conheceram coisa
alguma acerca da maravilhosa graça de Deus através de Cristo. Qualquer pessoa
que voltasse do cristianismo para o judaísmo se identificaria não somente com a
descrença judaica, como também com aquela maldade que levou a crucificação de
Jesus. As palavras para si mesmos ou “por conta própria” tornam claro que devem
assumir a plena responsabilidade pela crucificação. Além disto, o escritor explica
que o efeito desta ação é este: expondo-o (a Cristo) à ignomínia
(paradeigmatizontas, outra palavra achada somente aqui no Novo Testamento). Não
poderia haver maneira mais vívida de identificar a posição dos apóstatas com
aqueles cujo ódio a Cristo os levou a exibi-Lo como objeto de desprezo numa odiada
execução romana. A condenação destas pessoas é tão forte que nada senão a
atuação mais grave da parte deles poderia explica-la. Subentende uma atitude de
hostilidade incessante.
Esta passagem tem causado extensos debates, e tem resultado em muitos malentendidos.
O problema principal é se o autor está dando a entender que um cristão
pode cair tão longe da graça até o ponto de ser culpado do pior delito possível
contra o Filho de Deus. Se a resposta for “sim” como explicamos aquelas outras
passagens que sugerem a segurança eterna dos crentes? As seguintes
considerações podem ajudar a compreender a mente do escritor a esta altura:
1. Calvino, convicto de que Deus vigiava Seus eleitos, somente podia supor que
o ato de “provar” mencionado aqui era meramente uma expressão parcial e
que as respectivas pessoas não corresponderam a ela (Calvino, Comm., pág.
76). A dificuldade com semelhante hipótese é que não está à altura das
palavras da Epístola, que não dão impressão de iluminação incompleta.
Calvino fala de alguns vislumbres de luz. Faz uma distinção entre a graça
recebida pelos réprobos e a que é recebida pelos eleitos. (Calvino, Institutas,
III, ii, 11).
2. Do outro lado, pode ser alegado que, tendo em vista as declarações desta
Epístola, permanece a possibilidade para qualquer crente apostatar da
mesma maneira descrita aqui? Isto tornaria menos certa qualquer garantia da
fé. Até mesmo tem sido sugerido que a severidade da advertência aqui talvez
forma ligação com o pecado imperdoável contra o Espírito Santo. Alguns têm
ficado profundamente perturbados, perguntando-se se já teriam cometido
semelhante pecado. Mas ninguém com um estado de mente tão endurecido
até o ponto de expor o Filho de Deus à ignomínia se preocuparia em qualquer
momento com uma questão desta natureza. A própria preocupação é
evidência de que o espírito Santo ainda está ativo.
3. Deve ser levado em conta que nenhuma indicação é dada nesta passagem
de que qualquer dos leitores tinha cometido o tipo de apostasia mencionada.
Parece que o escritor está refletindo sobre um caso hipotético, muito embora,
na natureza do argumento inteiro, deve ser suposto que era uma
possibilidade real. A intenção, claramente, não é fazer uma dissertação sobre
a natureza da graça, mas, sim, dar uma advertência nos termos mais
enfáticos possíveis. A passagem inteira é vista do lado das responsabilidades
do homem e deve, portanto, ser considerada limitada. Outras palavras, o lado
divino deve ser contrastado com esta passagem para ser obtido um equilíbrio
verdadeiro.
4. A passagem, além disto, declara a impossibilidade em termos de restaurar os
transgressores a uma nova condição de arrependimento (vv. 4-6). Surge a
pergunta acerca do escopo do arrependimento aqui. Refere-se ao ato inicial
de um homem quando vem a Deus, no sentido em que parece ser usado no
v.1? Se for assim, é claramente impossível uma segunda realização de
semelhante ato inicial, embora seja certamente possível lembrar-se dele.
Visto que o arrependimento é um ato que envolve a auto-humilhação do
pecador diante de um Deus santo, fica evidente porque um homem com uma
atitude de desprezo para com Cristo, não têm possibilidade de
arrependimento. O processo do endurecimento fornece uma casca
impenetrável que remove toda a sensibilidade para com o pleitear do Espírito.
Chega-se a um ponto de nenhum retorno, quando, então, a restauração é
impossível. Embora o escritor esteja expondo um caso extremo, tem
confiança nos seus leitores (v. 9). A pesar disto, acha necessário voltar a
advertir severamente no cap. 10.
O texto a seguir foi Extraído da Enciclopédia O Novo Testamento Explicado, de
R. N. Champlin, Editora Candeia, 1998, vol. 5, págs. 537-540.
«...É impossível... » O que é impossível? A restauração dos apóstatas. O que é
possível para o crente? A apostasia. Essas são as idéias do autor sagrado. E essa é
a única interpretação honesta. É inútil, por exemplo, vermos qualquer exceção a
isso, observando-se que, no sexto versículo, onde aparece o verbo principal («...e
caíram... »), a idéia está condicionada à ação maligna de haverem «crucificado ao
Filho de Deus». Esta ação está apresentada no particípio presente, que pode ser
traduzido como «enquanto crucificam ao Filho de Deus», o que poderia indicar que,
se abandonarem tal atitude, sua renovação é possível. Seria uma observação vâ
dizer que «É impossível renovar os apóstatas enquanto persistirem em crucificar
novamente a Cristo, com sua rebeldia». Isso é tão obvio que nem mereceria
atenção. Mas o que precisa ser mencionado é que é «impossível» renovar os
apóstatas, e que os verdadeiros crentes podem apostatar. E é exatamente esse o
aspecto que dá a esta passagem sua urgência particular. Portanto, a tradução
correta seria: «...É impossível restaurar ao arrependimento aqueles que antes foram
iluminados... se cometerem apostasia, posto que assim crucificam ao Filho de Deus,
para seu próprio detrimento, expondo-o à ignomínia... ». Esse é o sentido
claramente tencionado pelo autor sagrado. Ele meramente expressava uma comum
interpretação rabínica, com base em Num. 15:28 e ss., onde se vê que havia perdão
para os pecados de ignorância, através de sacrifícios cruentos, mas não havia
perdão para pecados «voluntários» ou de «presunção», mediante aqueles
sacrifícios. Naqueles casos o indivíduo era «cortado» de Israel, sem qualquer
remédio. Que nosso autor tem em mente essa tradição é evidente com base em
Heb. 10:26, onde ele menciona especificamente a «fatalidade» do «pecado
voluntário». Para tal pecado não havia sacrifício – ficava fora do alcance expiatório
dos sacrifícios. O que resta é apenas uma espera temível pelo juízo e pela
indignação divina. Se os interpretes ansiassem por interpretar o autor sagrado com
base no que ele provavelmente cria, devido suas conexões com a tradição judaica, e
não com base no que «ele teria dito, para concordar com nossa teologia», não
haveria dificuldade e nem confusão em torno deste texto. Naturalmente, o problema
seguinte é: O autor sagrado estava com a razão? Em resposta a isso observamos
que ha alguns conceitos do A.T. (como o presente) que o N.T. ultrapassou. A idéia
inteira do julgamento é exemplo disso. O conceito judaico era tremendamente duro e
inflexível, sem admitir qualquer modificação ou exceção. E há passagens do N.T.
que refletem isso. Mas há outras passagens, como as de I Ped. 3:18-20; 4:6; Fil. 2:9-
11 e o primeiro capitulo da epistola aos Efésios, que vão além dessa posição,
mostrando que o Verbo eterno tem um alcance remidor que lança raios de
esperança que iluminam o inflexível conceito de julgamento. É claro que isso não
inclui a restauração de todos a uma posição igual à dos eleitos, mas indica que o
julgamento envolveria mais do que mera retribuição – também tem aspectos
disciplinadores e restauradores, até onde isso agradar a Deus, a fim de que tudo
redunde na glória de Cristo. O trecho de Efe. 1.10, que alude ao «mistério da
vontade de Deus», alude a esse tipo de interpretação. Mas esse é um conceito
extremamente sublime do N.T., que ultrapassa à visão do A.T. Assim, no presente
contexto, embora o autor sagrado demonstre uma visão puramente judaica, sobre a
total impossibilidade de recuperação dos apóstatas, contudo, há outras passagens
do N.T., como aquelas que falam sobre a segurança final e necessária daqueles que
confiam em Cristo (segundo se vê no décimo capítulo do evangelho de João e no
oitavo capitulo da epístola aos Romanos), que lançam um raio de esperança sobre o
caso ate mesmo dos apóstatas.
O Progresso da Doutrina
1. Por que nos surpreenderíamos que um escritor do N.T. soubesse mais acerca de
alguma questão ou doutrina espiritual do que outro? Por que teríamos de pensar que
todos eles se achavam no mesmo nível de conhecimento? Admitimos livremente,
que o N.T. transcende ao A.T. quanto ao conhecimento e à profundeza espirituais.
Porventura Paulo não conhecia mais que os demais apóstolos, a respeito da graça e
do destino humano, em Cristo?
2. Se esse é o caso, então é possível que o autor da epístola aos Hebreus, na idéia
que formava sobre a apostasia, como algo não somente possível a um verdadeiro
crente, mas também absolutamente fatal e sem remédio, não tivesse tão completa
visão do poder e da misericórdia de Cristo, como se depreende de outros trechos do
N.T.
3. É insensatez distorcer o texto presente, fazendo-o ensinar algo que ele não
ensina, a fim de «reconciliá-lo» com outros trechos bíblicos. Isso faz-nos pensar no
trecho de Num. 15:28 e ss., o qual, até onde posso ver, tem seus conceitos
ultrapassados nas páginas do N.T.
4. O poder de Cristo aparece como algo grandioso, na epístola aos Hebreus. Na
realidade, porém, ainda é maior do que ali se retrata. Outras passagens do N.T.
existem que nos fornecem visões que ultrapassam, em muito, ao entendimento
refletido por essa epístola, quanto a certas particularidades. O autor sagrado,
apegando-se a idéias judaicas, cria que um verdadeiro crente pode apostatar.
Aferrado a essa mentalidade, ele via fatalidade absoluta na apostasia. Outras
passagens do N.T. concordam com ele – a apostasia é possível (ver I Cor. 9:27,
corretamente compreendida; e ver também Col. 1:23). Essa tradição e tão sólida no
N.T. que sua veracidade precisa ser admitida. Porém, o novo pacto também frisa a
idéia da eventual «segurança» para aqueles que conhecem a Jesus Cristo como seu
Salvador. De alguma maneira, Cristo nunca permitira que se percam. Isso envolve
uma eventual restauração, ou nesta esfera terrena ou em algum campo espiritual,
onde o Verbo eterno os buscara. Mas, embora essa seja a verdade, não devemos
permitir que tal fato suavize a advertência contra a apostasia. Pois esta é possível; e
ela leva a alma à agonia e ao desastre, mesmo que a graça de Deus venha
eventualmente a aliviá-la.
As Muitas Interpretações Sobre Essa Passagem
Qual é a interpretação da presente passagem? Antes de apresentarmos a exposição
geral sobre a dificílima passagem dos versículos quarto a sexto deste capitulo,
consideremos os diversos tipos de interpretação que se tem vinculado à mesma:
1. A interpretação arminiana normal: A maior parte dos arminianos vê, nas
Escrituras, o perigo real da apostasia. Esses entendem que esta passagem da
epístola aos Hebreus da apóio a sua idéia. Ate esse ponto certamente estão certos,
apesar de não verem a eventual restauração dos apóstatas como algo «necessário»
(se esses foram, de fato, verdadeiros crentes). Porém, a maioria dos arminianos crê
que a restauração dos apóstatas é possível, posto que não «necessária». E nisso
entram em contradição com o autor sagrado, embora certamente estejam certos,
com base em outras passagens do N.T. A fim de consubstanciar essa idéia, porém,
precisam torcer o texto presente, de uma maneira ou de outra. É melhor dizermos
simplesmente que este conceito foi ultrapassado, pois, revelações maiores, que
revelam a vasta significação do oficio remidor de Cristo.
2. A interpretação arminiana radical: Essa interpretação afirma exatamente o que o
texto diz. A apostasia é possível para um crente verdadeiro, e é algo totalmente sem
remédio. Essa interpretação ignora outras revelações neotestamentárias mais
elevadas sobre o tema. Limita o ofício remidor de Cristo aos conceitos judaicos.
Interpreta corretamente o texto presente, mas não deixa penetrar luzes maiores
dadas por outras passagens do N.T. Ver Num. 15:30.
3. A interpretação calvinista franca: Segundo essa interpretação, os indivíduos aqui
referidos não podem ser crentes verdadeiros. Estes (crentes em apostasia) seriam
contrastados com os verdadeiros crentes, aludidos no nono versículo «Quanto a vós
outros; todavia, ó amados, estamos persuadidos das cousas que são melhores e
pertencentes a salvação, ainda que falamos desta maneira». Os indivíduos aludidos
na presente passagem seriam apenas iluminados, mas que ficaram aquém da
regeneração. Se alguém chegar a esse estado, terá muitas vantagens; contudo,
poderá cair, sendo «impossível» renovar os tais. Essa interpretação evita a questão
inteira ignorando o fato evidente que o autor sagrado falava sobre «crentes reais»,
que a eles é que fez tais advertências. Não estava advertindo «leitores fantasmas».
(Quanto a notas expositivas que abordam a questão, ver Hebreus. 3:6b e 4:1).
Pensar que tais avisos não se destinam a crentes é contradizer a tese central
consubstanciada neste tratado, fazendo com que o livro (que consiste
essencialmente de uma advertência para não nos desviarmos e chegarmos a
apostasia) não tenha qualquer aplicação aos crentes. Isso é um absurdo. Ninguém
jamais teria pensado em tal interpretação, a não ser aqueles que precisam
harmonizar tudo a um padrão teológico de propósito comumente aceito, ao invés de
modificarem sua «teologia» mediante idéias novas. Essa interpretação ignora o fato
que o N.T. contem tanto a idéia de «possibilidade de queda» como a idéia de
«segurança». Talvez tenhamos aqui um «paradoxo», isto é, um ensino
«autocontraditório». É melhor nos aceitarmos ambos os aspectos da verdade bíblica,
chamando-os de formadores de um paradoxo, deixando que a questão seja
reconciliada quando tivermos recebido maior luz, do que rejeitarmos um ou outro
aspecto da verdade. O tema é meramente uma subcategoria daquele «paradoxo»
ainda maior, isto é, o do «livre-arbítrio versus determinismo divino», que é um dos
principais problemas cientifico, filosófico e teológico. De algum modo, o homem e ao
mesmo tempo livre e está sob obrigação. De alguma maneira Deus usa o livrearbítrio
humano sem destruí-lo, embora não saibamos dizer como isso pode ser. O
livre-arbítrio e o determinismo são ambos aspectos da verdade bíblica, mas não
sabemos harmonizá-los. Contudo, a segurança eterna e a possibilidade de queda
podem admitir certa reconciliação entre si. Pelo menos, poderíamos especular
acerca desta ultima questão. Tal especulação aparece nas notas expositivas sobre
Rom. 8:39, com comentários mais breves nas notas presentes e em Heb. 3:6b e 4:1.
4. A interpretação calvinista modificada: Essa diz que aqueles que foram
«iluminados, mas ainda não foram regenerados» podem ser restaurados, porquanto
a sua restauração só será impossível enquanto «continuarem a crucificar ao Filho de
Deus» (ver o sexto versículo deste capitulo, tirando proveito da interpretação
possível do particípio presente).
5. Ainda dentro do campo calvinista, temos a interpretação hipotética. Segundo essa
interpretação, as advertências constantes na epístola aos Hebreus, incluindo a
presente, visam «crentes verdadeiros», mas meramente advertiriam contra a
apostasia, usando essas advertências para «assustar» aos crentes. Porém, ao
analisarmos de perto a questão, ainda segundo essa interpretação, nenhuma
apostasia seria de fato possível. E as próprias advertências serviriam de
instrumentos para impossibilitar a apostasia. Portanto, a apostasia seria apenas algo
«hipotético». Essa interpretação, naturalmente, é totalmente ridícula. Faz com que o
autor sagrado pareça um escritor desonesto. Este faria advertências, mas estas
seriam apenas pílulas de açúcar, fantasmas terríveis, mas, sem qualquer substância
real, embora tenham o poder de aterrorizar as pessoas. Com razão, pois, até mesmo
a maioria dos próprios calvinistas repele essa noção.
6. Ainda dentro do campo calvinista: Há aqueles que dizem que esses avisos se
destinam aqueles que tem muitas vantagens, como a criação em um lar crente, o
terem sido batizados na idade infantil, o terem freqüentado escolas cristas, mas que,
chegados a idade adulta, tomam suas próprias decisões, revoltando-se contra seus
pais e seus mestres, abandonando a fé crista. Naturalmente, esses nunca foram
verdadeiros crentes. Mas, apenas gozaram de vantagens próprias dos crentes. Essa
interpretação equivale as de numero três e quatro, embora com a leve distorção que
estaríamos tratando com membros jovens das igrejas, que finalmente se revoltam,
ao chegar o tempo de assumirem responsabilidade diante de Deus. Pouquíssimos
intérpretes levam a sério essa interpretação. Nada há no contexto que sugira tal
refinamento.
7. A teoria dos pouquíssimos apóstatas: Voltando as interpretações arminianas,
encontramos a deste parágrafo. Alguns admitem que haverá «alguns apóstatas», os
quais ficam inteiramente fora da esperança de restauração. Judas Iscariotes é
salientado como um desses exemplos. Seriam indivíduos apóstatas quanto às
doutrinas, que se revoltariam contra Cristo, negando-o inteiramente, embora antes
tivessem sido crentes autênticos. Não seriam os que entram meramente em uma
vida pecaminosa, mas sua apostasia envolve a fé básica, e não a mera moralidade
que não vive segundo os padrões do cristianismo. Isso é possível, mas teríamos de
esperar um numero «extremamente reduzido» de casos; portanto, não haveria
qualquer problema para a «igreja em geral». Trata-se de uma espécie de
interpretação «arminiana-calvinista», que permite a apostasia (ponto de vista
arminiano), mas, que não lhe dá campo largo, de tal modo que, para todos os
propósitos práticos, não se transforma em um problema (calvinismo). Mas que isso é
uma noção falsa fica evidente diante do próprio fato que o autor sagrado se
preocupava com «todos» os seus leitores, fazendo-lhes continuamente advertências
severas no seu tratado. Certamente, ele sentia que o desvio para a apostasia
representa um perigo real, para todos para quem escreveu, e não meramente para
algum grupo de pessoas extremamente raras, nenhuma das quais se acharia entre
seus leitores.
8. A interpretação do paradoxo: Tanto a possibilidade de queda como a segurança
eterna, são verdades bíblicas, ensinadas em diferentes lugares do N.T. O trecho do
sexto capitulo da epistola aos Hebreus parece favorecer os arminianos, pois ensina
a possibilidade de queda. Outras passagens, como o oitavo capítulo da epístola aos
Romanos, parecem favorecer a idéia da «segurança eterna», sem qualquer
qualificação. No presente não temos qualquer meio de reconciliar essas idéias.
Nossa responsabilidade é aceitar a ambas, aplicando-as a nossa vida e deixando a
questão da reconciliação nas mãos de Deus. Essa talvez seja a maneira correta de
ver o problema, embora este comentário tente uma reconciliação, que reputamos ser
razoável, e não ate mesmo absolutamente certa.
9. Alguns supõem que a possibilidade de queda é uma realidade, mas que o juízo
prometido para os que caem não e o juízo eterno, e, sim, alguma severa disciplina
da parte de Deus. Isso significaria que aqueles que caem não deixam de ser crentes,
em qualquer sentido absoluto. Mas isso obviamente não está em foco no presente
texto. A passagem de Hebreus. 10:27 mostra-nos que os apóstatas (e os referidos
como tais realmente tinham apostatado) só podem esperar o temível fogo da
indignação divina como sua sorte. Certamente está em foco o julgamento eterno.
«Horrível cousa é cair nas mãos do Deus vivo» (Hebreus. 10:31).
10. A única interpretação que parece adaptar-se tanto a esta passagem como a
outras passagens do N.T. que a modificam, e aquela que leva em conta os pontos
seguintes:
a. A que admite a interpretação arminiana: é possível a queda, e todos os crentes
enfrentam esse perigo.
b. A que admite a interpretação calvinista: a segurança do crente e uma realidade, e
haverá de caracterizar finalmente a todos os remidos.
c. Portanto, a queda é algo relativo a experiência da alma, antes de serem traçadas
as linhas eternas, quando do juízo, por ocasião da «parousia» ou segundo advento
de Cristo.
Notemos que tais linhas serão traçadas quando da segunda vinda de Cristo, e não
por ocasião da morte física (o que e comentado em I Pedro. 4:6), Portanto, até
aquela oportunidade, sem importar se alguém se acha no campo físico ou espiritual,
a restauração da alma é possível.
d. A segurança é absoluta porque, finalmente, deverá caracterizar a pessoa que se
entregou confiantemente aos cuidados de Cristo.
e. O ofício remidor pertence ao Verbo eterno, e não meramente a ele ao encarnar-se
nesta esfera terrena; portanto, ultrapassa as barreiras do tempo e do espaço. Os
trechos de I Pedro. 3:18-20; 4:6 e o primeiro capítulo da epistola aos Efésios
ensinam tal necessidade, e não meramente a deixam implícita. O que foi dito aqui
concorda com as linhas mestras de interpretação encontradas nos pais gregos e
alexandrinos da igreja, como Justino Mártir, Pantaeno, Clemente de Alexandria e
Orígenes, embora não tivessem expressado a questão exatamente com esses
termos. Apesar de não termos resposta absolutamente certa para uma passagem
como a presente, essa linha de pensamento parece ser a abordagem mais frutífera
de todas. O próprio autor sagrado, entretanto, quis ensinar o que é expresso na
segunda dessas dez posições. E ainda há outras interpretações que mesclam ou
modificam aquelas que são aqui apresentadas.
Cotton (in loc.), reconhecendo o fato evidente que o autor sagrado não aceitava a
renovação após a apostasia como algo possível, diz o seguinte: «Tal é o claro
sentido do escritor sagrado. Que se pode dizer sobre ela? Atitude vai a questão da
apostasia sob perseguição, a igreja cristã não tem seguido o autor sagrado, mas
antes, tem feito provisão para os caídos que depois se arrependeram, o que deu
origem a instituição da penitência. Na prática, a igreja deixou de lado esta
passagem. Podemos transformá-la em um vespeiro de argumento teológico – para a
nossa vergonha». (Em seguida Cotton mostra a futilidade dos argumentos
comumente aplicados ao texto, ao dizer): «Se um homem realmente cai, e porque
nunca participou deveras dos benefícios mencionados nos versículos quarto e
quinto. Se ele realmente participou desses benefícios, então é que realmente nunca
caiu, sem importar quais sejam as aparências externas. Se, após uma queda
aparente, ele volta em penitência e manifesta os sinais de uma vida cristã fiel,
realmente nunca caiu. Todo esse argumento é um circulo vicioso e fútil».
Mas, finalmente, Cotton lança luz sobre a passagem, embora admitindo a sua
severidade: «Nada existente nesta passagem deve levar-nos a duvidar da total
misericórdia de Deus; pois, do contrario, esta passagem destruiria o evangelho. É
verdade que abusamos de Jesus quando pecamos. Mas o Senhor Jesus pode
tolerar o ridículo. Ele orou por aqueles que zombavam de seus sofrimentos, na cena
da cruz: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" (Luc. 23:34). Pedro, um
dos discípulos favoritos, que certamente estava qualificado, se alguém já o esteve,
para os benefícios alistados pelo autor sagrado nos versículos quarto e quinto,
também submeteu seu Senhor ao opróbrio. Contudo, depois disso foi recebido por
Jesus, foi perdoado e se tornou pregador do dia de Pentecostes, um dos lideres da
igreja. Deus nunca fará ouvidos surdos para o clamor sincero da fé, por mais que
tenhamos pecado. Jesus ensinou a seus discípulos que perdoassem ate "setenta
vezes sete" (ver Mateus. 18:22)... Não admira que os apóstolos tivessem clamado:
"Aumenta a nossa fé" (ver Lucas. 17:5). Mas Jesus falava em favor de Deus, e Deus
cumpre as suas promessas. Por conseguinte, quando qualquer pecador hesitante,
sem importar quão profundamente tenha caído, e impedido de penitenciar-se, por
esta passagem, ou por qualquer outra declaração da Bíblia, e que não estaremos
"manuseando corretamente a palavra da verdade" (ver II Timóteo. 2:15). Esse autor,
pois, diz indiretamente aquilo que digo diretamente neste comentário. Ele lança a luz
de outras passagens neotestamentárias sobre a questão, e vê nisso uma constante
e grandiosa esperança. Qual e a significação histórica desse tema da
impossibilidade de arrependimento para os apóstatas? Esse tema é um dos
assuntos distintivos deste tratado, e que só ocupa o segundo lugar antes do
ensinamento sobre o sumo sacerdócio de Jesus Cristo. (Ver também Hebreus. 2:2,
3; 10:26 e ss.; 12:25 e ss., quanto a instâncias em que tal ensino é encontrado). A
epístola aos Hebreus, acima de qualquer outro livro do N.T. enfatiza o sacerdócio de
Cristo (que é seu tema principal); e, além de outras coisas, ressalta a fatalidade da
apostasia. Tertuliano, o montanista, e outras seitas rigorosas da igreja cristã, têm
usado esta passagem como «texto de prova» para seu costume de se recusarem a
aceitar de volta na igreja os que se haviam «desviado», embora esse lapso tenha
ocorrido debaixo de perseguição. (Quanto ao uso desta passagem pelas
controvérsias montanista e novaciana, ver Tertuliano, de Pudc., cap. XX). Porém, a
correnteza principal da igreja se recusou a permitir esse costume, recebendo de
volta aqueles que se tinham desviado; mas não os rebatizavam, supostamente
encontrando nesta passagem uma base para isso. (Ver Atanasio, Ep. ad Serap.,
§13, vol.). É possível que o autor sagrado concordasse com a idéia que o «desejo
de ser reintegrado», após o lapso, é prova de que não houve verdadeira apostasia.
Porém, não podemos ter certeza a esse respeito.
Qual é a base desse ensinamento?
Tal alicerce se acha na interpretação única, justificada em Num. 15: 28 e ss. Mas o
autor sagrado, em sua forte fase sobre o aspecto de «finalidade» da revelação
divina, em Cristo, bem raciocina que se uma revelação é final, mas chega a ser
rejeitada, nada mais existe para onde possa ir um homem. Terá rejeitado a única
esperança, não havendo razão para supormos que retornará a uma esperança que
ele mesmo rejeitou. Ele não atribui essa impossibilidade ao lado divino; ou pelo
menos, isso não se evidencia no texto sagrado. Antes, parece que a impossibilidade
reside na própria pessoa. Aquilo que um nem se recusa continuamente a fazer, não
querendo obedecer à vontade de Deus, finalmente se torna para ele uma
«impossibilidade moral», não porque Deus assim o decrete, mas porque já perverteu
seu próprio senso moral até chegar a total insensibilidade. Qual é a relação que tem
esse pecado de apostasia com o pecado imperdoável, referido em Mateus. 12:31,
32? (Ver as notas expositivas nessa referência, a respeito do «pecado
imperdoável»). Se tomarmos a posição de que este pecado é uma forma agravada
de rebelião contra Deus e seu Cristo, uma espécie de produto final da revolta
humana contra o Senhor, e que chegou ao extremo da apostasia, então certamente
esses dois ensinamentos paralelos. Porém, se assumirmos o ponto de vista
«dispensacional», que diz que o pecado imperdoável só podia ser cometido nos dias
de Jesus na carne, exigindo a sua presença, quando os homens atribuíam suas
obras miraculosas ao poder de Satanás, então não haverá qualquer paralelismo,
exceto em atitude, entre esta passagem e o «pecado imperdoável», que aparece
nos evangelhos sinópticos. Este comentário toma a posição que o pecado
imperdoável» só podia ser cometido por pessoas da época de Jesus, que viram
pessoalmente o seu ministério e o rejeitaram, atribuindo tudo a Satanás. Outrossim,
é duvidoso que os piores inimigos de Jesus tivessem sido suficientemente
iluminados quanto à «origem» das obras de Jesus, de modo a entenderem, pelo
menos intuitivamente, que ele realmente provinha de Deus. Assim sendo, é até
mesmo possível que ninguém tenha jamais, cometido o pecado imperdoável.
Consideremos o caso de Saulo de Tarso. Quem, dentre todos os inimigos de Jesus,
foi tão amargo quanto ele, tão inclinado às blasfêmias? Contudo, é obvio que ele
nunca se tornou culpado desse pecado. Julgo que ninguém jamais o cometeu,
embora fosse possível. Provavelmente, pois, não há qualquer conexão entre esta
passagem do sexto capitulo da epistola aos Hebreus e o «pecado imperdoável» que
aparece nos evangelhos sinópticos. «A conexão entre esta passagem e a anterior,
portanto, é que se alguém ficar satisfeito com sua presente e elementar possessão
da verdade cristã, e que a entende de modo inadequado; a força da tentação é tão
forte que essa familiaridade rudimentar não impedira que alguém caia; e aquilo que
assegura a posição religiosa de alguém consiste em ver o pleno sentido do que
Jesus é e faz. Esse é o sentido que o autor sagrado anelava por transmitir, e não
como coisa extra, e, sim, como algo essencial. Essa situação é tão séria, deixa ele
entendido, que somente aqueles que percebem plenamente o que Jesus significa,
no campo do perdão e da comunhão serão capazes de manter-se firmes. E uma vez
que alguém se torne relapso, argumenta ele, uma vez que abandonamos a fé, isso é
fatal. As pessoas que deliberadamente abandonam sua confissão de fé cristã não
podem mais ser recuperadas. Tal ponto de vista sobre a apostasia, como ofensa
hedionda, já que destrói toda a esperança de recuperação, e característica deste
tratado (aos Hebreus). Mas essa posição não se confina a este autor sagrado. A
idéia que certas pessoas não podiam arrepender-se de seus pecados era admitida
já pelos rabinos judeus. Por muitas e muitas vezes encontramos a declaração: "Para
aquele que peca, e leva outros a pecarem, nenhum arrependimento é permitido ou é
possível" (Aboth, v. 26; Sanhedrin, 107b). "Aquele que se entregou totalmente ao
pecado é incapaz de arrepender-se, não havendo perdão para o tal, para sempre"
(Midrash Tehillim sobre o Salmo 1 ad ! fin.). (Moffatt, in loc., o qual compreendeu
bem a mensagem do presente texto). Essa atitude vai além do que diz Filo, o qual
admite o perigo de quem não é aprovado em qualquer empreendimento moral, mas
que nunca condena a quem tiver assim falhado à impossibilidade de recuperação.
(Ver , de agricultura, 2S, comentando sobre Gen. 9:20). As pessoas aqui advertidas
são crentes: Isso é patenteado pelo próprio fato que as coisas aqui alistadas são
características dos crentes (iluminação, prova, etc.), como coisas paralelas aos
«princípios elementares» do cristianismo, referidas nos versículos primeiro e
segundo. Aqueles que são aqui aludidos já tinham ouvido e já participavam dessas
bênçãos. Portanto, eram crentes. Não há qualquer indício que fossem
«pseudocrentes», que tivessem sido iluminados, mas que tivessem ficado sem a
regeneração. Isso é estranho ao contexto e a mentalidade do autor sagrado, sendo
idéia diretamente contrária a própria tese deste tratado, que visa advertir a crentes
que se desviavam e que corriam o perigo de apostatar.
Qual é a natureza da apostasia em foco? Apesar de que a apostasia aqui aludida
certamente e «doutrinária» e «espiritual», visto que envolvia a negação de Cristo e
de sua missão, é óbvio que isso é visto como algo «provocado» pelo desvio e pelo
retrocesso moral. Toda a epístola aos Hebreus, até este ponto, serve de prova a
esse respeito. O autor sagrado já mostrara que seus leitores tinham de progredir na
inquirição espiritual, pois, do contrário, estagnariam, desviar-se-iam, e, em seguida,
apostatariam. Portanto, o aspecto «moral» está incluído. Não se tratava de mera
negação «doutrinária» de Cristo. Eram ateus na vida diária, antes de sê-lo nas
doutrinas; sua vida era rebelde, antes de se rebelarem em suas idéias; eram
«incrédulos na prática», antes de o serem teoricamente. «...foram iluminados... »
Essas palavras poderiam indicar uma das seguintes coisas: 1. Ou que foram
batizados, visto que o termo «iluminação» era freqüentemente empregado com o
sentido de ser batizado. 2. Ou talvez se refiram à iluminação do Espírito. 3. Mas
também podem estar incluídas ambas as idéias: a iluminação do Espírito por
ocasião do batismo. O uso da palavra «iluminação», em alusão ao batismo, era
bastante comum na época de Tertuliano, talvez como termo tomado por empréstimo
das religiões misteriosas, que assim denominavam seus ritos de abluções e
lavagens. 4. Sem importar se temos aqui ou não uma alusão ao batismo, o autor
sagrado indica definitivamente uma autêntica iluminação do Espírito sobre o crente,
o qual vem assim a reconhecer a Cristo como seu Salvador, que é a Luz do mundo.
(Ver o trecho de Efe. 1:18 e as notas expositivas ali existentes, sobre a «iluminação
dada pelo Espírito»). Os intérpretes que fazem essa iluminação não equivaler e ficar
aquém da «regeneração», fazem o texto ser uma zombaria, como se o mesmo não
estivesse falando para crentes e nem se referisse a eles, mas como se tivesse
aplicação a «leitores fantasmas», que não são identificados no tratado e nem tem
qualquer conexão com os crentes que talvez lessem este livro. Não há justificativa,
no próprio texto, que nos permita entender senão que o autor considerava seus
leitores como crentes autênticos. Eram pessoas que tinham saído das trevas do
paganismo para a luz divina, mas que começavam a interessar-se novamente pela
sua vida anterior. Ou então eram crentes judeus que tinham chegado a perceber a
real luz de Deus, em Cristo, prefigurado no A.T., mas que começavam a inclinar-se
por retornar a religião judaica inferior, e, portanto, «sem luz». «Os quais de uma vez
para sempre tinham deixado as trevas de sua vida anterior, tendo sido iluminados
pelo ensinamento do evangelho» (Erasmo, in loc.).
A iluminação e o batismo: O primeiro desses vocábulos é usado para indicar o
«batismo», nos escritos de Justino Mártir (Apol. I.62); Tertuliano (de Pudic., cap. XX);
e Crisóstomo, em sua homilia, que se dirigia aos candidatos ao batismo: "Aqueles
que estão prestes a serem iluminados". A versão siríaca peshito, de séculos
posteriores, traduz esta passagem como segue: «Os quais de uma vez por todas
desceram ao batismo». Apesar de que o próprio N.T. nunca chama o batismo de
«iluminação», as religiões misteriosas, anteriores ao cristianismo, já tinham tal
expressão, que usavam acerca de seus vários tipos de «batismos». Portanto, é
possível, embora não seja provável, que se pretenda fazer aqui tal equiparação. E
que dizer sobre o testemunho do trecho de Heb. 10:32? Notemos que, nesse
referido versículo, é usado o mesmo termo grego para indicar os cristãos hebreus:
«...Lembrai-vos, porém, dos dias anteriores em que depois de iluminados,
sustentastes grande luta e sofrimentos...». É realmente duvidoso que possamos
aplicar a palavra «iluminado» a um incrédulo, a uma alma «não-regenerada», de
acordo com o que se lê no N.T. Excetuando a necessidade que alguns tem de erigir
um sistema teológico no qual não haja problemas – em que tudo fique em estado de
harmonia e reconciliação – nunca teria sido ensinado que termos como os que se
acham nos versículos quarto e quinto deste capitulo poderiam ser aplicados a
incrédulos. Os mesmos termos, achados em qualquer outra conexão (além daquela
que admite a possibilidade da apostasia), teriam sido reputados por todos nós como
aplicáveis exclusiva e obviamente a crentes. «...uma vez foram iluminados...», isto é,
houve um momento especifico quando foram iluminados, e nesse estado viveram
por algum tempo. Algumas traduções dizem aqui «de uma vez por todas»,
salientando a realidade (e suposta «finalidade») da experiência. Esse sentido é
possível, segundo se deduz do fato que vários autores usam o termo grego «apaks»
desse modo. (Ver Hipocr. Eph. 27,41; Aeliano, V. H. 2,30; Salmos de Salomão 12:6;
Filo, Ebr. 198; Josefo, Guerras dos Judeus, 2.158; Antiq. 4:140). O trecho de Heb.
10:2 também parece exigir esse significado.
«...provaram o dom celestial... » Alguns intérpretes chegam aqui ao extremo absurdo
de estabelecer distinção entre «provar» e «beber», como se «provar» fosse uma
experiência superficial do Espírito, ao passo que «beber» indicasse uma experiência
mais plena e real. Porém, o termo «provar», nos escritos rabínicos, significa
«participação», «experiência em», não havendo qualquer modificação da idéia.
Notemos, em Heb. 2:9, como se diz que Cristo «provou a morte por todo homem».
Porventura ele apenas entrou «parcialmente» no estado de morte? Sofreu apenas
parcialmente pelos homens? A palavra «provar» indica simplesmente uma
verdadeira participação em algo, o que e poeticamente expresso. Conforme diz
Moffatt (in loc.), essa palavra indica uma «metáfora grega helenista contemporânea
para indicar experiência». (Ver Philo, quanto ao mesmo emprego, em de Abrah, 19;
de Somniis, i.26; e também Josefo, Ant. iv.6,9).
«...dom celestial...» Há um grande numero de estranhas interpretações sobre essa
expressão, a saber: 1. Alguns pensam na Ceia do Senhor, talvez por sugestão da
palavra «provar», tal corno «iluminação» poderia sugerir o batismo. 2. Outros
imaginam a eucaristia vista sacramentalmente, como agente que transmite aos
homens o corpo e o sangue de Cristo. 3. A regeneração em geral. 4. A persuasão
por aceitar as condições da vida eterna. 5. A graça abundante do cristianismo. 6. A
fé. 7. O evangelho. 8. O dom celeste que produz a iluminação, ou seja, o Espírito
Santo. 9. O próprio Cristo (supostamente um paralelo de II Cor. 9:15). 10. A vida
eterna, vista como algo dado através de Cristo (ver Rom. 6:23). 11. O infinito amor
de Deus. Não há como identificar o que o autor queria dizer com plena certeza; mas
algo como a vida eterna, através de Cristo, mediante o Espírito adapta-se ao
contexto.
«...participantes do Espírito Santo... » (Ver sobre o «dom do Espírito» e o «batismo
do Espírito Santo», nas notas expositivas sobre Atos 2:4; ver a nota de sumário
sobre o «Espírito», em Rom. 5:1). A questão de terem eles «participado» do Espírito
significa que, tendo-se convertido, chegaram a ser habitados pelo Espírito, indicando
que foram «dotados» por ele. Notemos que, no segundo versículo deste capítulo
encontramos a «imposição de mãos», mediante o que o Espírito era dado, e através
da qual ação os homens são espiritualmente «dotados». Tais coisas faziam parte do
cristianismo «elementar». Portanto, não há razão alguma para supormos que esteja
em foco qualquer coisa menor que a presença habitadora e os dons espirituais. No
Espírito lhes foram dados todos os recursos necessários para a vida santa e para o
sucesso final na inquirição espiritual. Porém, a rejeição voluntária de Cristo pode
reverter todas essas bençãos, já que o Espírito Santo é o alter ego de Cristo,
permanecendo somente com aqueles que lhe são fieis. Não há aqui qualquer indício
direto de algum «pecado contra o Espírito Santo» (o «pecado imperdoável» que
figura nos evangelhos sinópticos – ver Mateus. 12:31,32). Mas o autor sagrado
acreditava definitivamente que «pecar» é desviar-se, o que leva à apostasia, exclui o
Espírito.
O Espírito Santo é o agente da totalidade da salvação; ele inspira fé, leva a
conversão e produz a santificação; por igual modo transforma-nos segundo a
imagem moral e metafísica de Cristo. Rejeitar a Cristo, pois, equivale a perder o
ministério do Espírito Santo em todos esses aspectos. O Espírito de Deus é o agente
de todos os benefícios enumerados nos versículos quarto e quinto deste capítulo.
Em defesa da posição calvinista, vários escritores se têm esforçado por mostrar que
alguns incrédulos, que apenas imitam crentes reais em sua profissão religiosa, de
algum modo «participam» do Espírito Santo, ilustrando com casos como o de Judas
Iscariotes, com a semente que cai sobre o solo rochoso, etc. Uma vez mais, porém,
isso faz com que o texto tenha sido escrito para uma audiência fantasma, e não para
uma audiência real e conhecida (o que é um absurdo), não reconhecendo o
paralelismo entre os versículos quatro e cinco, por um lado, e primeiro e segundo,
por outro, que descrevem como os leitores tinham participado dos princípios
«elementares» do cristianismo. Para esses é que foi escrito este tratado, pois eram
judeus cristãos. Acerca deles é que o autor sagrado se preocupava e a quem
advertia, não visando algum grupo invisível e desconhecido de pessoas, que por
acaso lesse este livro.
Mais duas explicações para Hebreus 6:4-6
Na forma de Adendo – Ou seja, vertem o parecer dos autores das obras citadas.
“Aviso contra a apostasia. O pecado voluntário que ameaçava os hebreus consistia
em abandonar o Cristianismo e voltar ao judaísmo. Não há nenhum sacrifício em
favor dos que apostatam da fé em Cristo — pela alma do homem só existe um único
sacrifício, o de Cristo. Ora, se o sacrifício de Cristo é definitivo, também é o último.
Rejeitá-lo voluntariamente implica ‘uma certa expectação horrível de juízo e ardor de
fogo’. O autor não limita a eficácia da obra de Cristo em favor do penitente. Sob a
Antiga Aliança, quem desprezasse a Lei de Moisés era punido com a morte. O
mesmo princípio está em vigência, e com maior rigor ainda para quem apostatar da
fé, pois constitui afronta a Cristo, à eficácia do seu sangue e um insulto ao Espírito
Santo, através de quem a graça de Deus se manifesta sobre os tais pesa o juízo de
Deus, do qual ninguém pode escapar”.
(Comentário Bíblico — Hebreus, CPAD, pág. 156).
“Continuar a pecar deliberadamente depois de termos recebido o conhecimento da
verdade é: (1) tornar-se culpado de pisar Jesus Cristo, tratá-lo com desprezo e
menosprezar sua vida e morte; (2) ter o sangue de Cristo como indigno da nossa
lealdade; e (3) insultar o Espírito Santo e rebelar-se contra Ele, o qual comunica a
graça de Deus ao nosso coração. ‘O justo viverá da fé’ (Hb 10. 38). Este princípio
fundamental, afirmado quatro vezes nas Escrituras (Hc 2.4; Rm 1.7; Gl 3.11; Hb
10.38), governa o nosso relacionamento com Deus e a nossa participação na
salvação provida por Jesus Cristo. (1) Esta verdade fundamental afirma que os
justos obterão a vida eterna por se aproximarem fielmente de Deus com um coração
sincero e crente (ver 10.22). (2) Quanto àquele que abandona a Cristo e
deliberadamente continua pecando, Deus “não tem prazer nele” e incorrerá na
condenação eterna (vv.38,39)” (Bíblia de Estudo Pentecostal, CPAD, pág. 1915).
Mais explicações para Hebreus 6:4-6
Na forma de Adendo – Ou seja, vertem o parecer dos autores das obras citadas.
(Hb NTLH 6:4-6)
4 Como é que as pessoas que abandonaram a fé podem se arrepender de novo?
Elas já estavam na luz de Deus. Já haviam experimentado o dom do céu e recebido
a sua parte do Espírito Santo. 5 Já haviam conhecido por experiência que a palavra
de Deus é boa e tinham experimentado os poderes do mundo que há de vir. 6 Mas
depois abandonaram a fé. É impossível levar essas pessoas a se arrependerem de
novo, pois estão crucificando outra vez o Filho de Deus e zombando publicamente
dele.
a) Um apelo urgente para o prosseguimento até à maturidade espiritual (Hb 5.11-
6.12)
As verdades concernentes ao sacerdócio de Cristo, segundo a ordem de
Melquisedeque, requerem exposição muito detalhada (11). Tais verdades são
alimento sólido (12-14), que só pode ser compreendido ou digerido pelos que já
estão espiritualmente maduros. O assunto inteiro, portanto, era difícil de ser
esclarecido para aqueles leitores particulares visto que, embora já fossem Cristãos
há bastante tempo, se tinham tornado relaxados e atrasados em sua resposta à
palavra dada por Deus. Note-se os termos tardios em ouvir (#Hb 5.11) e indolentes
(#Hb 6.12); Os oráculos de Deus (#Hb 5.12) provavelmente são palavras que, neste
contexto, significam o Evangelho, cujos rudimentos são indicados em #Hb 6.1-2.
Essa mensagem e as Escrituras do Antigo Testamento são assim reputados ambos
como declarações proferidas por Deus. Cfr. #Rm 3.1-2; #1Pe 1.23-25. Nos vers. 13
e 14, note-se o detalhado contraste entre os dois tipos ("adultos" e "bebês"), suas
respectivas condições ("faculdades exercitadas" e "inexperiente"), e suas
respectivas dietas ("alimento sólido" e "leite").
>Hb-6.1
Os crentes que se encontram nessa condição atrasada e indolente têm a urgente
necessidade de despertarem-se a fim de avançarem ativamente em direção à
maturidade, em lugar de tentarem repetir o processo de colocar novamente os
fundamentos, isto é, os princípios elementares da doutrina de Cristo (1). Note-se a
natureza básica das ações e doutrinas mencionadas nos vers. 2 e 3. Elas
representam os passos que se espera que o novo convertido dê, bem como as
verdades essenciais que lhe compete crer. A única salvaguarda contra o escorregar
para trás e cair é o prosseguir para a frente. Isso requer ação deliberada e decisiva.
Não obstante, paradoxalmente, deixemo-nos levar (1) está igualmente num verbo
em voz passiva (cfr. #At 27.15-17; #2Pe 1.21). "O pensamento não envolve
primariamente algum esforço pessoal, e, sim, rendição pessoal a uma ativa
influência. O poder está operando; temos apenas de nos rendermos ao mesmo" (B.
F Westcott, Hebrews, pág. 145). Cfr. #Ef 3.20; #Fp 2.13. Desse modo, o escritor
exorta seus leitores a responderem a essa influência externa, e, no vers. 3, falando a
seu próprio respeito, e não sobre outros, expressa a decisão de assim agir.
>Hb-6.3
Há uma qualificação necessária e muito solene. Os homens só podem agir assim se
Deus permitir (3). Algumas ações, pela própria constituição divina das coisas, são
moralmente "impossíveis" (4). Se os homens participam da Igreja visível,
compartilhando de todas as bênçãos do Evangelho, se (à semelhança daqueles, por
ocasião do livramento às margens do Mar Vermelho, que mais tarde pereceram
mediante a incredulidade, no deserto) têm realmente estado na companhia de
pessoas que têm experimentado as poderosas operações do Espírito de Deus, e
assim têm por si mesmos "provado" (5) de Seu caráter, e depois deliberadamente se
afastam e rejeitam a Cristo, é impossível dar início novamente ao processo no caso
dos tais, renovando-os para o arrependimento. Tal como no caso daqueles que
falharam decisivamente, ou deliberadamente recusaram-se a responder
positivamente à graça divina, nada mais resta para estes senão o julgamento. Cfr.
#1Co 10.1-5 e, especialmente, #Lc 20.13-16. As Escrituras ensinam
consistentemente que as mesmas ações da graça divina, que põem ao alcance dos
homens a salvação e a vida, igualmente estabelecem a condenação final daqueles
que, após terem compartilhado dessa revelação, rejeitam-na deliberadamente. Cfr.
#2Co 2.15-16. Igualmente, é impossível, nos estágios iniciais, distinguir a diferença
entre o trigo e o joio, ou entre a semente que se ressecará ou será sufocada e
aquela que produzirá fruto para a vida eterna. Cfr. #1Co 10.12; #2Tm 2.18-19. O
julgamento é determinado não pelo início, mas antes, pelo fim, isto é, pelo fruto (8).
Eis porque o escritor sagrado tanto se preocupava que aqueles que tinham
começado a experimentar a graça de Cristo, comprovassem a autenticidade de sua
experiência prosseguindo até seu verdadeiro final. Cfr. #2Pe 1.5-11.
>Hb-6.4
Aqueles que uma vez foram iluminados (4). As palavras, uma vez sugerem certo
aspecto absoluto e final, que indica algo feito de uma vez por todas, de tal modo que
isso se torna necessariamente incapaz de repetição. Isso faz contraste com as
palavras outra vez (6). Compare-se seu uso em #Hb 9.26,28; #Hb 10.2; #Hb 12.26-
27. Aqueles que assim foram uma vez iluminados, nunca mais serão iguais àqueles
que nunca receberam a luz. Caíram (6) significa não pecados grosseiros, mas antes,
nada menos que apostasia deliberada, uma completa rejeição e execração à fé de
Cristo. No que lhes diz respeito (isto é, para si mesmos), tais pessoas expulsam
Cristo de suas próprias vidas, ou rejeitam Sua reivindicação de ser o Filho de Deus,
por ação similar à daqueles que procuraram livrar-se dEle ao crucificá-Lo. Desse
modo, expõem Cristo publicamente à vergonha. Ver também o Apêndice III, "As
Passagens Admoestadoras".
>Hb-6.8
Após exibir tão solene quadro de condenação inevitável (8), o escritor Se apressa,
movido por verdadeira afeição (somente nesta altura da epístola ele chama de
amados os seus leitores), a assegurar a seus leitores que estava convencido que
eles não se encontravam nesse estado desesperador (9). Por conseguinte, alguns
comentadores consideram o tipo descrito nos vers. 4-8 como hipotético e não como
real. Pelos vers. 10-12 aprendemos o que indica verdadeira vida espiritual e o que é
necessário para o pleno progresso espiritual, a saber, a diligência, ou zelo todoabsorvente,
no trabalho... do amor (10), isto é, o ministrar aos irmãos crentes por
amor ao nome do Pai, a "plena certeza da esperança" (11), na expectativa do
cumprimento das promessas de Deus, bem como o persistente e paciente esperar
da fé (12), até o dia em que nossa possessão seja realizada.
>Hb-6.13
b) Bases de confiança inspiradoras de constância (Hb 6.13-20)
As promessas de salvação feitas por Deus são ainda mais firmes por terem sido
confirmadas por um juramento proferido pelo próprio Deus. Isso era verdade desde o
princípio. Quando as promessas foram feitas a Abraão, Deus ao mesmo tempo jurou
que as cumpriria (13-14). A confiança de Abraão na palavra de Deus capacitou o
patriarca a suportar tudo pacientemente, até que a promessa se cumpriu. Pode-se
aprender o significado da prestação de juramento pela prática de jurar que é comum
entre os homens (16). O propósito do juramento é pôr fim a toda dúvida ou
apreensão acerca de uma promessa e fazer calar todos quantos tentarem
contradizer sua certeza. Sua veracidade e cumprimento certo, portanto, foram
confirmados pelo mais solene dos compromissos. Isso comumente envolvia
juramento pelo Todo-Poderoso. Quando os homens assim comprometem sua
palavra um para o outro, virtualmente chamam a Deus para que sirva de mediador
entre eles, como testemunha das promessas feitas (cfr. #Jz 11.10; #Rm 1.9) e para
observar seu cumprimento (cfr. #Rt 1.17). Na qualidade de Alguém que é superior
Ele é capaz de vingar-se se qualquer das partes contratadas deixar de cumprir sua
palavra. Essa certeza da divina vingança torna o juramento de Deus como algo final
como confirmação de promessas. A fim de tornar os homens duplamente certos
acerca de Sua promessa, Deus condescendeu em usar esse método de prestação
de juramento (17-18). Portanto, Ele se fez (visto não haver ninguém superior para
quem fosse possível apelar) uma espécie de terceiro interessado ou mediador entre
Si mesmo e os homens. Portanto, possuímos uma dupla base de confiança, em
Deus, Aquele que promete e nos dá garantia em Sua palavra, e em Deus, Aquele
que garante e nos confirma Sua promessa por meio de juramento. Conclui-se que
não há possibilidade do indivíduo vir a ser enganado a respeito da promessa ou ficar
desapontado a seu respeito.
>Hb-6.19
Temos por âncora (19) provê uma ilustração peculiarmente apropriada. Tratava-se
de um símbolo reconhecido de esperança. Sugere a confiança de voltar-se para e
apegar-se à confiança que se firmará e jamais falhará porque entra nas profundezas
invisíveis, o santo dos santos. Além disso, essa corrente de pensamento traz de
volta às mentes dos leitores a pessoa de Jesus e seu ofício sumo-sacerdotal
segundo a ordem de Melquisedeque (20), o grande tema acerca do qual o escritor já
havia indicado grande desejo de expô-lo (#Hb 5.10-11). Jesus nos oferece nova
esperança, visto haver entrado no santuário mais interno, não apenas a nosso favor
(por nós), mas igualmente entrou como "precursor", abrindo o caminho para que O
possamos seguir, para que desse modo chegássemos até à própria presença de
Deus. Cfr. #Hb 7.19 e #Hb 10.19. Semelhantemente, como uma âncora, Ele nos
oferece uma certa e absoluta confiança, visto que Ele habita no mais íntimo
santuário da presença de Deus, ou seja, ali permanece entronizado, em contraste
com os sumos sacerdotes segundo a ordem levítica, que eram instalados no ofício
para posteriormente serem removidos por motivo de falecimento. Por isso é que Ele
se tornou sumo sacerdote para sempre (20). É justamente essa qualidade eterna
que distingue a ordem sacerdotal de Melquisedeque da ordem levítica de Aarão.
MAIS PASSAGENS ADMOESTADORAS
Ver #Hb 2.1-4; #Hb 3.7-4.1; #Hb 6.4-8; #Hb 10.26-31,38-39; #Hb 12.25-29. Na
qualidade de judeus, aqueles cristãos hebreus estavam acostumados à idéia de uma
sucessão de profetas e de uma continua repetição de sacrifícios pelo pecado.
Precisavam tornar-se cônscios do caráter final e definitivo da revelação de Deus e
da reconciliação a Deus outorgada aos homens através de Cristo. Visto que o Filho
encarnado é a última palavra aos homens, e porque aos homens é oferecida em
Cristo uma maravilhosa salvação, mediante a graça, aqueles que não Lhe dão
ouvidos não podem esperar escapar do vindouro julgamento de Deus. Nenhuma
palavra adicional de intervenção salvadora pode ser esperada da parte de Deus.
Além disso, visto que o sacrifício de Cristo de Si mesmo foi uma realização decisiva
e definitiva, não há mais oferta pelo pecado (#Hb 10.18) quer feita por Cristo, no
céu, quer feita pelos homens, sobre a terra. Nem também pode haver repetição do
sacrifício único de Cristo (#Hb 9.25-28), nem Deus jamais introduzirá outro sacrifício
qualquer (#Hb 10.26). Esse sacrifício único pelo pecado, levado a efeito de uma vez
para sempre, é todo-suficiente para sempre, para todo o povo de Deus (#Hb 10.10-
14).
O desfrutamento dos benefícios do sacrifício de Cristo pelos homens é,
semelhantemente, "de uma vez para sempre" (#Hb 6.4); é decisivo, final e eterno.
Por conseguinte (seguindo certa interpretação sobre essa passagem) qualquer
indivíduo que tenha sido conscientemente confrontado com essa oferta da graça, e
compartilhou pessoalmente das provas de sua origem, para em seguida rejeitar
deliberadamente o Evangelho de Jesus como o Cristo (naturalmente sem ter
verdadeiramente crido e sido regenerado) não pode ser semelhantemente levado,
segunda vez, à oportunidade de arrependimento e fé. Ou, alternativamente
(seguindo outra interpretação), aqueles que têm experimentado todas as bênçãos
características da graça salvadora de Deus, por meio do sacrifício expiador de Cristo
e da operação do Espírito em seus corações, e então se afastam de tudo, tentando
viver como se tais coisas não fossem reais nem jamais tivesse acontecido, não
podem ser levados de volta, segunda vez, à reação cristã inicial e decisiva de
arrependimento e fé. O significado de #Hb 6.6 pode ser que a mera sugestão que
Cristo virtualmente necessita ser novamente crucificado, para trazer de volta tal
apóstata ou desviado até o lugar do arrependimento decisivo e da revivificação do
Espírito, é sujeitar a Cristo e à eficácia de Seu sacrifício único a uma ignomínia
pública. O processo inteiro é inconcebível. Tal renovação de iluminação e
arrependimento, portanto, é absolutamente impossível, tal como quando muitos
israelitas se afastaram de Deus, devido à incredulidade, foi impossível levá-los
desde o deserto até segunda experiência da páscoa e da travessia do mar
Vermelho, a fim de despertar ou renovar sua fé. Para tais apóstatas ou incrédulos
não havia, e continua não havendo, outra expectação além da do julgamento.
A espécie de fracasso que está aqui em jogo (pa
ra seguir determinada
interpretação) é nada menos que um abandono consciente, deliberado e persistente
do caminho cristão da salvação, um abandono que envolve nada menos que a
apostasia do Deus vivo, rejeição da Palavra e testemunho confirmado de Deus-Pai
Filho e Espírito Santo tratando o Filho de Deus como os judeus O trataram em
Jerusalém, como Alguém que deveria ser renegado e crucificado, assim como que
sujeitando-o publicamente à maldição do céu, negando a significação de aliança
entre Deus e Seu sangue derramado, e insultando ao Espírito que, graciosamente,
pleiteia junto aos homens para que reconheçam a Jesus como Senhor. Tais ações
certamente são aquelas que nosso Senhor chamou de blasfêmia contra o Espírito
Santo, que é um pecado eterno e jamais tem perdão (#Mc 3.28-29). Não obstante,
era justamente a um pecado desse caráter que aqueles cristãos hebreus estavam
expostos, já que estavam sendo tentados a retornar para onde estavam
anteriormente, no Judaísmo (embora fazer isso fosse realmente impossível), quando
teriam de repudiar publicamente a Jesus como Messias e Filho de Deus.
Entretanto, é possível (seguindo-se uma interpretação alternativa) que o escritor
sagrado estivesse preocupado em deixar claro, a seus leitores inquestionavelmente
crentes, que sua presente tendência de se tornarem preguiçosos, acomodando-se a
meio caminho da imaginada possessão do que sua fé em Cristo já lhes tinha
proporcionado, era uma ilusão fatal. O motivo é que, para aqueles que assim deram
início ao caminho do discipulado cristão, as únicas possíveis alternativas são:
prosseguir até à plena possessão da herança da fé, ou recuar desse movimento
para a frente de Deus em suas vidas e assim cair sob Seu inevitável julgamento, à
semelhança dos israelitas, que se tornaram objetos da indignação de Deus e foram
prostrados no deserto, visto que não se tinham preparado, mediante a fé em Deus,
para prosseguir até à Terra Prometida. Nesse caso, a espécie de fracasso aqui em
foco, é o fracasso daqueles que, tendo sido levados pela graça a uma relação de
aliança com Deus, falham completamente em considerar com a devida seriedade
seus admiráveis privilégios e grandíssimas obrigações. Se aqueles que já tinham
sido redimidos do Egito, que deixaram de obedecer à palavra de Deus sob o
primeiro pacto sinaítico, foram removidos em julgamento de entre a companhia do
povo de Deus, não é justo que aqueles que deixam de responder favoravelmente às
exigências do novo pacto em Cristo, devem com justiça esperar um tratamento ainda
mais severo e drástico? Pois enquanto que, na vida cristã, a disciplina de Deus,
ainda que dolorosa, é proveitosa e deve ser acatada como prova que Ele nos trata
como a filhos Seus, tendo em vista o nosso progresso na santidade, pode alguma
coisa qualquer ser mais terrível, na vida de quem, mediante a graça de Deus já é
filho de Deus, do que, em relação à sua conduta terrena subseqüente, Deus tenha
de tratar com ele mediante um julgamento incandescente e até mesmo fatal?
As questões teológicas aqui envolvidas são se aqueles que assim estão na
possibilidade de apostatar ou cair sob o julgamento de Deus foram alguma vez
regenerados, ou Se qualquer homem, uma vez salvo, pode vir finalmente a perderse.
Em resposta a ambas as perguntas alguns dizem enfaticamente: "Não". Fazem
comparação com os tipos mencionados em #Mt 7.22-23; #Mt 12.22-32. Argúem que
a própria apostasia de tais indivíduos é prova que nunca foram regenerados. Mas
outros afirmam que aqueles que são descritos em #Hb 6.4-5 certamente devem ser
regenerados; pois nenhuma descrição mais inequívoca sobre alguém regenerado
poderia ser apresentada. Alguns, então, argúem que o julgamento conseqüente
contra sua completa degeneração e esterilidade espiritual não envolve
necessariamente a perda da eterna salvação. Estão, por exemplo, tão somente
"perto da maldição" (#Hb 6.8). Cfr. #1Co 3.15; #1Co 5.5. Outros, ainda, supõem que
essa sugestão que um indivíduo regenerado assim pode tornar-se apóstata e vir a
finalmente perder-se, é realmente apenas hipotética e teórica. Até mesmo segundo o
ponto de vista humano, isso é muito menos provável que o suicídio físico, e por isso
deve ser considerado apenas como uma possibilidade remota; pois que, em
realidade, olhando-se a questão do ponto de vista divino, mediante a graça tal
possibilidade nunca pode tornar-se realidade. Ver #Jo 10.28.
Todavia, os crentes cristãos e todos que compartilham do conhecimento da verdade,
fariam bem em tratar com a devida seriedade essas solenes advertências. Não nos
esqueçamos do que escreveu João Bunyan: "Então vi que há um caminho para o
inferno, partindo dos próprios portões do céu, bem como partindo da Cidade da
Destruição". Relembremo-nos igualmente, que o apóstolo Paulo temia que, de
alguma maneira, após haver ele pregado a outros, e sido usado para conduzir outros
a Cristo, ele mesmo viesse a ser "desqualificado" (#1Co 9.27; o grego é,
literalmente, "desaprovado", mas esta versão traduz admiravelmente bem o termo).
Cfr. #2Pe 2.20-21.
A. M. STIBBS Rev. A. M. Stibbs, MA, DD Rev. E. F. Kevan, MTh
Concordância:
Hb-6.4
É. #10.26-29; 12.15-17; Mt 5.13; 12.31,32,45; Lc 11.24-26; Jo 15.6; 2Tm 2.25; 4.14;
2Pe 2.20-22; 1Jo 5.16 uma vez foram. #10.32; Nm 24.3,15,16 e provaram. #Mt
7.21,22; Lc 10.19,20; Jo 3.27; 4.10; 6.32; At 8.20; 10.45; 11.17; Rm 1.11; 1Co
13.1,2; Ef 2.8; 3.7; 4.7; 1Tm 4.14; Tg 1.17,18 participantes. #2.4; At 15.8; Gl 3.2,5
Hb-6.5
provaram. #Mt 13.20,21; Mc 4.16,17; 6.20; Lc 8.13; 1Pe 2.3; 2Pe 2.20 os poderes.
#2.5
Hb-6.6
renová-los. #4; Sl 51.10; Is 1.28; 2Tm 2.25 estão crucificando. #10.29; Zc 12.10-14;
Mt 23.31,32; Lc 11.48 e expondo-o. #12.2; Mt 27.38-44; Mc 15.29-32; Lc 23.35-39
Fontes:
O Novo Comentário da Bíblia Editado pelo Prof. F. Davidson, MA, DD
Colaboradores Rev. A. M. Stibbs, MA, DD Rev. E. F. Kevan, MTh
Editado em português pelo Rev. Dr. Russell P. Shedd, MA, BD, PhD